"CARMEN MIRANDA - A CANTORA SÍMBOLO"

Revista "Caras" nº 1
São Paulo, 12 de novembro de 1993

As 278* músicas que Carmen gravou acompanham gerações, como Taí e O Que É Que a Baiana Tem. O êxito internacional dessa mulher inquieta e ingênua começou em Buenos Aires e acabou nos EUA, num contraste com o clichê de alegria. A estréia na Argentina, em 1931, está registrada neste ensaio fotográfico de Annemarie Heinrich.

ARGENTINA, REQUEBROS E MUITOS FÃS
Carmencita, apelidaram-na os argentinos quando Carmen Miranda chegou pela primeira vez ao país, em 1931, para levar o samba a Buenos Aires. Ela integrava uma excursão que incluia os cantores Francisco Alves e Mário Alves, entre outros. O grupo estava com medo, porque entrava no palco do Cine-Teatro Broadway logo após o cantor de tangos Carlos Gardel, ídolo imbatível.

Mas o contraste da apresentação de Carmen, cantando com requebros e trejeitos Pra Você Gostar de Mim, mais conhecida como Taí, marcha carnavalesca de Joubert de Carvalho, de 1930, foi um sucesso. Carmen voltaria à capital argentina ao menos uma vez por ano. Na terceira excursão, o apresentador de seu show foi o galã de cinema Fernando Lamas. Anos depois, Carmen o reencontraria em Hollywood. Às vezes a irmã Aurora Miranda ia junto a Buenos Aires. Outros familiares costumavam acompanhá-la porque o pai, ex-barbeiro do Porto (Portugal), preocupava-se com a honra da filha num ambiente - de rádio e teatro - que considerava libertino. Numa das viagens, conheceu uma jovem atriz argentina do interior, sua fã: Eva Duarte, que no futuro seria a mulher do ditador Juan Perón, segundo Martha Gil-Montero, autora do livro Carmen Miranda, a Pequena Notável, publicado pela Editora Record em 1989.


O AMOR QUE NÃO DEU CERTO
Carmen Miranda preocupava-se bastante com o que supunha ser sua missão: difundir o samba e o Brasil, pátria afetiva. A cantora nasceu em Portugal, em 9 de fevereiro de 1909, na pequena cidade de Marco de Canavezes, perto do Porto. O pai emigrou em 1910 para o Rio de Janeiro, a mãe seguiu-o meses depois, com as duas filhas. O empenho em transmitir a imagem de "embaixadora do samba" explica o rigor com que Carmen se vestia e se maquiava para as fotos de divulgação na Argentina. Nesse

período ela gostava de dizer que tinha duas personalidades. Uma pertencia a Maria do Carmo Miranda da Cunha, seu nome de batismo: puritana, séria e muito católica - a formação escolar, que interrompeu depois de concluir o ginásio, foi num colégio de freiras.

A outra, Carmen, usava roupas escandalosas para a época, fumava, aprendia a dirigir (péssima, mais tarde, ao volante do seu Cadillac conversível, nos Estados Unidos, aprontou vários pequenos acidentes) e era capaz de empregar uma linguagem inadmissível nos salões. Muito baixinha, ainda não posava para as fotos de divulgação com os turbantes que a deixavam mais alta e que ela mesma fazia, já que seu primeiro emprego de menina pobre havia sido de chapeleira. Também não tinha a coleção de sapatos de plataforma ornamentados como alegorias de escolas de samba. Nem enchera sua arca do tesouro, onde guardava os tecidos brilhantes e as contas para os turbantes. Em 1934, a excursão para a Argentina representou um sucesso também para o Bando da Lua, conjunto que a acompanhava em seus espetáculos. O principal violonista e mais tarde regente do grupo, Aloysio de Oliveira, foi o grande amor não correspondido da vida da cantora.

POLITICAGEM E CASACO DE PELES
Até 1938 Carmen Miranda se apresentou em Buenos Aires.

Nesse ano, fez seu último filme no Brasil, Banana da Terra, dirigido pelo músico João de Barro. Pela primeira vez usou num filme a fantasia de baiana - muito lamê, dourados, os fabulosos sapatos de plataforma e a fruteira com bananas no turbante. A atriz Marília Pêra inspirou-se na fantasia para a peça A Pequena Notável, dirigida por Maurício Sherman, em 1972. No Brasil filmou também: A Voz do Carnaval (1933), direção de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro; Alô, Alô, Brasil (1935), dirigido por Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro; Estudantes (1935), direção de Wallace Downey; Alô, Alô, Carnaval; (1936), dirigido por Adhemar Gonzaga. Em Banana da Terra Carmen cantou 0 Que É Que a Baiana Tem, de Dorival Caymmi, de quem aprendeu o balé das mãos para acompanhar a dança dos braços, a energia e a marcante interpretação que compensava o fio de voz. As canções que tornou verdadeira marca de brasilidade já tomavam conta do país. A discografia completa está no livro de arte Carmen Miranda, de Cássio Emmanuel Barsante, publicado pela Editora Europa, em 1985.

Carmen viajou para os Estados Unidos em 1939, convidada pelo produtor Lee Shubert, de Nova York. Os bastidores do convite parecem fabulações. Do lado brasileiro, teria havido empenho do ditador Getúlio Vargas em melhorar a imagem do Estado Novo e a participação do Brasil no mercado

internacional do café. Getúlio teria pago as passagens do Bando da Lua e oferecido a Carmen um casaco de peles. Do lado americano havia a política da boa vizinhança, que almejava um "quadro de cooperação econômica e dependência" com os países do Sul, alem da construção de bases militares no Brasil.


A FAMOSA CENA DA CALCINHA
O enorme laço e as pulseiras prenunciavam as roupas e os balangandãs que conquistariam as lojas nova-iorquinas Saks e Macy's, na 5ª Avenida ainda exclusiva, em 1939, depois do sucesso de Carmen no musical de Lee Shubert, Ruas de Paris, na Broadway. Em 1940, de volta ao Rio, Carmen quase foi vaiada no Cassino da Urca. Abaladíssima, fechou-se. Dois meses depois reconquistou a crítica num show com músicas-resposta: Disseram Que Voltei Americanizada e Voltei pro Morro, ambas de Luiz Peixoto e Vicente Paiva. E desse ano seu primeiro filme americano, Serenata Tropical, dirigido por Irving Cummings. Carmen fez catorze filmes nos EUA. O melhor foi Copacabana, de 1947, direção de Alfred E. Green. A fita mais folclórica, por causa de um incidente, foi Aconteceu em Havana, de 1941, dirigida por Walter Lang. Num intervalo das filmagens Cesar Romero rodopiou com Carmen e a calcinha-cinta dela caiu. Um fotógrafo flagrou sua nudez e as fotos circularam (os negativos foram

destruídos).

Em 1943, depois de uma depressão séria submeteu-se a uma cirurgia plástica no nariz, que ficou malfeita. Em 1947 casou-se com o montador David Sebastian porque temia morrer solteira. Infeliz no amor, frustrada por não ter filhos, angustiada por não se desvencilhar do seu personagem - passara de cantora a atriz secundária -, Carmen drogava-se, com remédios para dormir ou estimulantes, e tomou choques elétricos contra a depressão. Em 1955, já muito rica, participou do programa de TV do apresentador Jimmy Durante. Cantou, dançou mambo e tango. Aí, desmaiou. Mas recompôs-se, bebeu e dançou com amigos em sua mansão de Los Angeles até de madrugada. Na manhã seguinte, 5 de agosto, o marido encontrou-a no chão do hall. O coração não resistiu. Tinha 46 anos.




* O catálogo oficial das músicas gravadas por Carmen Miranda, no Brasil, dão conta de 281 registros. (Doni Sacramento)