OUVINDO CIGARRAS HUMANAS...

Revista "Vida Doméstica", nº 148 - Julho de 1930

Carmen Miranda, a festejada intérprete da música folclórica brasileira, fala-nos da sua vitoriosa carreira artística.

"Vida Doméstica" resolveu fazer uma série de entrevistas com as cigarras humanas, que não dão importância aos conselhos de La Fontaine e cantam para os microfones, dando um pouco de poesia à vida atribulada e vertiginosa dos nossos dias. A primeira cigarra que ouvimos foi Carmen Miranda, artista cheia de graça e de vivacidade, que já se vai notabilizando como uma das melhores intérpretes da música típica nacional, do samba, das canções folclóricas, tão pitorescas na sua gíria bizarra. Carmen Miranda atendeu gentilmente à solicitação de Vida Doméstica e assim falou de sua vitoriosa carreira artística:

Desde criança, dediquei-me a interpretar canções. As minhas primeiras exibições foram nas festas escolares e o sucesso que então obtive, animou-me a prosseguir. Mais tarde, cantei em várias festas de caridade e a minha voz, que se adapta bem ao samba brasileiro, e a minha maneira própria, pessoal de interpretá-lo, valeram-me a simpatia de meus ouvintes. Um dia, em uma festa realizada no Instituto Nacional de Música, o distinto musicista professor Josué de Barros, veio felicitar-me, dizendo que eu era uma das mais felizes intérpretes do samba, essa música deliciosa que toda a gente adora. O professor Josué de Barros interessou-se por mim e apresentou-me à Companhia Victor, indicando-me para gravar algumas de suas músicas, entre as quais "Triste Jandaia", "Dona Balbina" e "Iaiá-Ioiô", grande êxito do carnaval deste ano. Foi assim que eu ingressei na fonografia, devendo ao professor Josué de Barros o melhor do meu sucesso artístico.

O êxito que eu tenho obtido como cantora de discos, atribuo-o em grande parte ao valor dos compositores que tenho interpretado, entre os quais é justo destacar Joubert de Carvalho, autor das magníficas composições "P'rá você gostar de mim", 'Meu neguinho me leve" e "Jeitinho Diferente" (sic). O meu disco de maior sucesso até agora foi "P'rá você gostar de mim", cuja tiragem se eleva a muitos milheiros e constitui um dos recordes de gravação da Victor. Tenho sido muito feliz na minha carreira. A Victor está satisfeita comigo e eu estou contentíssima com a Victor.

- Nasceu aqui mesmo no Rio? - perguntamos-lhe.

- Aí uma coisa interessante - respondeu sorridente Carmen Miranda. Todas as pessoas que me conhecem pensam que sou brasileira, nascida no Rio. Como se vê, sou morena, tenho o verdadeiro tipo da brasileira, e daí pensarem todos que eu nasci aqui. Sou, entretanto, filha de Portugal. Nasci em Marco de Canavezes e vim para o Brasil com um ano de idade apenas. Mas o meu coracão é brasileiro, que se assim não fosse eu näo compreenderia tão bem a música desta maravilhosa e encantadora terra.

Realmente Carmen Miranda, cujas últimas criações artísticas havíamos ouvido momentos antes na Casa Paul J. Christoph Co., representantes da Victor Talking Machine Co., dá às músicas que interpreta todas as nuances que caracterizam a música típica brasileira.

- Dedica-se apenas à interpretação de nossos sambas? - interrompemos.

- Canto também tangos argentinos, em espanhol, mas ainda não quis gravá-los. Brevemente, talvez cante duas ou três dessas músicas para o microfone. O meu temperamento é demasiado jovial. Prefiro as músicas alegres e por essa razão não quis cantar tangos e tenho-me esquivado a interpretar canções sertanejas de gênero romântico, puramente sentimentais.




(Comentário de Abel Cardoso Junior:)
Esta é uma das entrevistas históricas de Carmen, concedida a um jovem repórter de 23 anos, R. Magalhães Junior, que mais tarde viria a ser famoso acadêmico, que conversou com Carmen na residência dela, na Travessa do Comércio, 13.