A VOLTA DEPOIS DE 14 ANOS — 3-12-1954 |
por ALEX VIANY
"Os dois primeiros filmes de Carmen Miranda em Hollywood — "Uma Noite no Rio e "Aconteceu em Havana" — foram feitos sem que ela soubesse patavina de inglês. Ou melhor, sem que soubesse ligar as poucas palavras já aprendidas. Mas, depois, quando pegou velocidade, não houve quem pudesse com ela. Hoje em dia, seu inglês é quase perfeito — a não ser na tela, quando ainda fala, por imposição dos estúdios, com um pesadíssimo sotaque de comédia, e cometendo erros gramaticais que causariam o suicídio coletivo dos professores de Harvard e Yale.
Aliás, cabe-me aqui — respondendo aos críticos patrícios que não vêem graça em nossa estrela — que a comédia de Carmen Miranda, para ela escrita por cenaristas americanos, é essencialmente dirigida às platéias de língua inglesa. Por isso, é apenas natural que a maioria de seus trocadilhos, de suas piadas, desapareça na tradução. Por outro lado, até os críticos mais severos devem ter observado que Carmen aprendeu depressa a fazer graça, a ficar à vontade diante das câmeras, sendo hoje, sem exagero, uma das pouquíssimas comediantes de valor do cinema norte-americano.
Em Hollywood, em bem pouco tempo a cantora brasileira conquistou os fãs americanos, e sua fama não tardou em se |
"Foi São Paulo a primeira terra brasileira que pisou. Quando surgiu na porta do aparelho da "Braniff", depois de nove horas de vôo da última escala, Peru, e quase dois dias de viagem dentro de um avião, não conteve a sua emoção, sincera e verdadeira. Seus olhos se encheram de lágrimas. Uma verdadeira crise de choro, que se transformou, depois, numa quase gargalhada, entrecortada de soluços. Foi emocionante aquele instante, em que fotógrafos metralhavam "flashes". Carmen não esperava a recepção, pois viajava incógnita e telegrafara para o Rio, ao presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Sr. Herbert Moses, se desculpando antecipadamente pelo fato de não pretender dar entrevistas, na sua chegada ao Rio.
— "Almirante!" gritou Carmen, ainda no alto da escada do avião, ao identificar o velho companheiro. Foram as primeiras palavras que pronunciou.
Abraçou o Almirante, e chorou, chorou copiosamente, nervosamente. E foi identificando, uma a uma, as pessoas que a rodeavam, cercavam, abraçavam. "Dr. Paulo Machado de Carvalho", "Araci", "Nestor!". Ficou comovida em rever Araci de Almeida e contente em encontrar, no aeroporto, o Nestor Amaral.
Havia um receio de que Carmen evitasse repórteres e fotógrafos. Mas ela posou para todos, cumprimentou todo |
mundo, transformou em alegria, satisfação, toda a emoção que ficou tomada nos primeiros minutos.
"Minha gente, estou feliz! Não sei dizer outra coisa. Como é gostoso voltar para casa!"
HISTÓRIA DE UMA VIAGEM
Nos últimos dias da semana, toda a imprensa do país tem registrado a notícia que Carmen Miranda chegaria esta semana ao Brasil, depois de catorze anos de ausência. Adiantavam que se tratava de uma viagem forçada pelo estado de saúde da "Brazilian Bombshell". Boatos alarmavam os fãs de Carmen Miranda, falando em grave crise nervosa. Até a hipótese de câncer chegou a ser ventilada. Entretanto, com a inesperada passagem de Carmen por São Paulo, descoberta pela reportagem menos de uma hora antes do avião da "Braniff" descer em Congonhas, trouxe completos esclarecimentos. Carmen Miranda tem trabalhado demais. Está esgotada, nervosa mesmo. Havia o perigo de uma crise e os médicos aconselharam uma mudança de ar, um período de repouso. Há duas semanas, Aurora Miranda, irmã de Carmen e nome famoso no rádio brasileiro de uma década atrás, sabendo do estado de saúde da "Bomba Brasileira", partiu para os Estados Unidos, com a intenção de promover a sua volta ao Rio, para um período de férias. Quando saiu do Rio, onde reside em companhia do marido e |
um casal de filhos, não tinha muitas ilusões. Carmen vinha relutando em vir ao Brasil, por motivos até hoje nunca bem explicados. Parece que muita gente andou procurando "envenená-la", principalmente com a imprensa.
Mas Aurora mesmo explica que encontrou Carmen com vontade de voltar. Só a idéia de uma viagem ao Brasil, operou um verdadeiro milagre no estado de saúde de Carmen Miranda. Quem esperava encontrá-la magra, abatida, em Congonhas, teve uma surpresa. Carmen evidentemente estava nervosa, emocionada. Mas bonita, dinâmica, com bom aspecto físico, olhos brilhantes, elegante mesmo, vestida toda de vermelho, os cabelos pintados de cor de cenoura... Guarda todo o seu charme, todo o seu encanto. Está tão moça quanto no tempo em que partiu para Estados Unidos.
Carmen Miranda viajou em companhia da irmã, Aurora e da mãe, dona Maria Emília da Cunha. As suas acompanhantes desmentiram qualquer atrito entre Carmen e o seu esposo, David Sebastian. Estão encantadas com a mudança de humor e vitalidade demonstrada por Carmen, desde que decidiu voltarão Brasil, para aqui se demorar um mês ou mais.
"É um verdadeiro milagre. Carmen está felicíssima, contente. Nem sabemos afirmar com certeza quais os seus planos, seus projetos. Está curada, sentimos isso!" |
Carmen Miranda em escala no aeroporto de Congonhas (São Paulo, 3 de dezembro de 1954) |
QUASE ENTREVISTA
Carmen Miranda foi envolvida por gente do rádio, jornalistas, amigos. Foi difícil manter permanente contato com ela, na meia hora que esteve em Congonhas, durante a escala do aparelho. Perguntas e respostas. Em linhas gerais, o que Carmen contou pode ser resumido.
"Não paro de trabalhar há catorze anos. Minha vida tem sido uma correria dos diabos. No ano passado estive na Itália. Desde que voltei aos Estados Unidos, depois de viagem à Europa, não pude parar, trabalhei demais. Fiquei doente por isso. Precisava de umas férias. Lembrei então de voltar ao Brasil. Agora já me sinto melhor. Não esperava ter uma acolhida tão simpática. É emocionante, juro. Depois de tanto tempo, saber que ainda querem a gente. Estou surpresa com a recepção dos paulistas. Não estava no programa, mas prometo voltar daqui duas ou três semanas. Nunca me esquecerei desta atenção da imprensa, do povo. Acho que vou chorar de novo..."
CINEMA E TELEVISÃO
"Estou contente nos Estados Unidos, mas nunca deixei de ser brasileira. A embaixada do Brasil nos Estados Unidos não é em Washington, é em minha casa. Lá recebo com carinho e atenção todos os brasileiros que me procuram. Quando |
alguém chega na porta, não pergunto quem é. Se é brasileiro pode entrar. Tenho trabalhado sem parar, mas quase que só em "boites" e em televisão. A televisão norte-americana roubou pelo menos cinqüenta por cento do público dos cinemas. São Paulo tem três estações de televisão? Oxalá tenha vinte... Há campo para todos. Não pretendo trabalhar, aqui. Filhinho, vim descansar."
"Alguém pergunta se ela veio "sassaricar". Carmen fica confusa e pergunta ao repórter o que é isso. Sua gíria está meio atrasada, mas o português é gostosíssimo, sem um pingo de sotaque.
JAPÃO E HONG-KONG
"Antes de embarcar para cá, assinei contratos, para breve, para cantar no Japão e Hong-Kong. Não sei o que eles querem comigo lá. Não vão entender nada", continua Carmen Miranda. Há uma turma do "deixa disso", que insiste em interromper, falar em nome dela, dizer que Carmen está cansada e que quer respirar um pouco de ar livre. Mas Carmen Miranda não se dá por achada. Faz pose para os fotógrafos. Atira um beijo para os fãs da televisão. Movimenta os braços, as mãos, repetindo gestos característicos que são a sua "marca". Chegou a cantarolar um pouco, dizer uma frase do "Boneca de Piche", no microfone de uma emissora. |
Quando o comandante da aeronave vem convidar Carmen Miranda para voltar ao avião e seguir viagem, ela ainda tem sorrisos e alegria, brilham seus olhos e ela confessa:
"Estou feliz, estou feliz como nunca. Muito obrigada para todos, por ainda se lembrarem de mim. Eu, juro, jamais esqueci este país, a minha terra. Sempre fui e continuo sendo a mesma Carmen Miranda. Olhe os meus olhinhos verdes. São os mesmos, são os mesmos...
O repórter voltou feliz do aeroporto. Esperava uma Carmen doente, que vinha morrer no Brasil. Encontrou-a viva, forte, feliz, dinâmica, moça, irradiando vitalidade e energia. Esperava encontrá-la americanizada e encontrou-a carioquíssima, tão Carmen Miranda quando foi para os "States". Podem os seus fãs, todos nós, ficarem sossegados, tranqüilos, felizes. Carmen Miranda voltou mais Carmen Miranda do que nunca.
Quando o repórter pediu uma declaração autografada para Carmen Miranda, ela sugeriu: "Deixe que eu só assine. Escreva você mesmo apenas "Saudades do Brasil", pois acho que, além do excesso de trabalho, catorze anos sem férias, um dos mais importantes motivos de minha doença era isso, saudades. Estou aqui e já estou boa!". (Mattos Pacheco, Jornal "Diário da Noite", São Paulo 4-12-1954) |
"— Foi na minha viagem à Europa (1953) que esse "negócio" começou. Passei noites e dias quase sem dormir, realizando uma "tournée" deveras cansativa. E isso após anos e mais anos também de atuações constantes nos Estados Unidos, ora em Nova York, ora na Califórnia. Estive na Itália, na França, na Finlândia, na Dinamarca etc. Mas, se me perguntarem o que achei de Roma, Milão, de Helsinque, de Estocolmo ou Paris, não saberei responder. Nem vi as cidades por onde passei. Era do teatro para o hotel, em todas elas, numa vertigem incessante de ação. Houve pequeninas cidades italianas que me acolheram com um entusiasmo tal que me derrearam por completo... Vocês sabem como é, não? Nos grandes centros, existe o policiamento que impede aos fãs uma aproximação total e contínua aos artistas que os visitam. Nos lugarejos, porém, é tudo amizade, calor humano de admiração, e... lá se vai a tranqüilidade da gente! Adorei tudo isso, esforcei-me ainda mais para agradar a esse público assim tão sincero, mas acabei esgotada. Fiz o resto da viagem, e das minhas apresentações, já fortemente abalada. De volta aos Estados Unidos, o médico me aconselhou umas férias de três meses... que não tomei. Até que um dia aconteceu o inevitável; sobreveio o colapso nervoso e tive de ser recolhida a um hospital, em Nova York, para onde fui transportada de Kentucky, onde me achava trabalhando. |
Saindo de lá, prossegui na existência habitual: "shows" em vários lugares, televisão, tanto em Nova York quanto na Califórnia, na N.B.C. e na C.B.S. e outras semelhantes. Não que isso me desagrade. Em absoluto. Fora do palco sou como peixe em terra e com sede...
Pára um pouco, sorri, e faz blagues com a sua doença:
— Vocês já ouviram falar nessa espécie de "frisson" que sacode o artista que se defronta com um novo público, embora muito habituado a isso? Pois é... eu não escapo nunca desse arrepiozinho. Mas, quando comecei a ficar doente, notei que o "frisson" virava tremedeira. (as mãos é que tremiam) e que o rosto de banhava então de suor, como se as luzes do proscênio fossem verdadeiros "spotlights" de Hollywood (dos estuaios, para as filmagens) a incendiar-me as faces. Aí é que compreendi a extensão do desequilíbrio nervoso produzido pela exaustão de que me falara já o meu médico californiano, numa advertência ainda somente de amigo." (Revista "Cinelândia", Rio fevereiro 1955, 1.a quinzena, página 69) |
Texto extraído do livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" de Abel Cardoso Junior Edição Particular do Autor - 1978  |