CARMEN MIRANDA CONQUISTOU A
"BROADWAY" pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)
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Alceu Penna — Março de 1940 — Nova York
"Lembro-me bem... Foi há três anos, numa tarde de chuva, quando, acompanhando Accioly Netto e Pedro Lima, à casa de Carmen, que eu muito desejava conhecer, que ouvi de sua boca estas palavras, que bem definem o seu modo de agir — com segurança e raciocínio: "Não irei aos Estados Unidos como uma mariposa, atraída pela luz, fiada em contratos aéreos. Tenho muita gente querendo a minha presença no microfone e no palco, aqui no Brasil e na Argentina, e isto me chega para viver perfeitamente bem. Nunca sairei para Nova York sem ver um contrato assinado no Rio de Janeiro, o "preto no branco", com dinheiro adiantado, para depositar no banco, pois, se fracassar na Broadway, nem tudo será perdido..."
Achamos que a "garota notável" estava cheia de razões, e o presente veio demonstrar que ela esperou a sua hora, para chegar à América no justo momento, conquistando-a em poucas semanas, para mandar de volta ao Brasil quase mil contos de economia, em seis meses de trabalho.
Carmen Miranda, quando conversamos pela última vez, em Filadélfia, onde agora está, em "tournèe", com a "troupe" de Lee Shubert, não se recordava dessa tarde encantadora, que passamos em seu bangalô que se debruça sobre a Urca, lá em cima da Avenida São Sebastião. Mas confirmou seu pensamento com estas frases encantadoras de brejeirice: "Tá vendo, meu |
nêgo? Preto no branco! E a coisa deu certo!"
(....) Carmen estava um pouco receosa quando veio para os Estados Unidos, porque, como insistiu quando desembarcou, só sabia vinte palavras inglesas e não podia cantar nesta língua. Mas não precisava afligir-se por isso. Em primeiro lugar, porque parece conhecer muito mais do que vinte palavras. Além do que uma atriz ou cantora que assassina o inglês faz mais reclame do que uma que fala como se tivesse nascido em Boston. Um perfeito exemplo disto foi Lili Da mita, a estrela do cinema importada por Sam Goldwyn, e que se tornou imediatamente conhecida simplesmente por falar como uma francesinha.
Seu contrato com Lee Shubert é também motivo de comentários. Sigamos, portanto, ainda Henry C. Pringle (cronista americano):
"Ainda é assunto de conjecturas a maneira pela qual descobriram Miranda.
"Uma versão da descoberta de Carmen Miranda é a que atribui a Mr. Connelly: tendo desembarcado no Rio, foi ao Cassino da Urca. A atração principal ali disseram-lhe que era uma cantora exótica conhecida em toda a América do Sul. Mr. Connelly ouviu Carmen, nada compreendeu, a não ser que era boa, e voltou para o vapor. Não estando interessado em comédias musicais, não lhe interessava Carmen Miranda, mas disse a Lee |
Shubert que fosse ao Cassino ouvi-la. Mr. Shubert foi.
"Esta, porém, não é a versão Shubert. Segundo C.P. Greneker, o conselheiro de Shubert em assuntos teatrais, havia já um ano ou dois que chegavam notícias do Rio sobre a excitante Carmen Miranda. Por isso o cruzeiro sul-americano de Lee Shubert não foi só por prazer.
"Foi ao cassino para ter uma idéia de Miss Miranda. O resultado inevitável foi uma proposta para vir a Nova York, que ela aceitou com a condição de trazer a sua própria orquestra.
"É óbvio que Jake e Lee Shubert, que foram inteligentes bastante para prendê-la por um contrato exclusivo, tem nela uma fonte de lucro. Pagam-lhe 750 dólares por semana pelos seis minutos em "Ruas de Paris". Poucos dias depois da estréia tem uma oferta de 1.000 dólares semanais para cantar num cassino e já era conhecida no rádio.
O resto da história de Carmen Miranda na América do Norte é algo de fantástico, ou "tremendous", como se diz habitualmente aqui. Nunca artista nenhuma conseguiu o sucesso que ela obteve, em tão pouco espaço de tempo. Mesmo em se tratando de cinema, arte mais facilmente universalizada que o teatro, poucas são as estrelas que conquistam, "falando inglês", público tão numeroso. E Carmen, como disse |
com muita graça James Marrott, em sua crônica, ao desembarcar, sabia apenas três palavras "yes", "no" e "money". Esta última, alias, com pronúncia errada...
Jornais importantes dedicam-lhe páginas inteiras — revistas de grande tiragem, como "Life", "Look", "Pie", fazem com ela reportagens fartamente ilustradas, e mesmo outras publicações de alta roda, habitualmente herméticas para com gente de teatro e cinema, como "Vogue", "Esquire" e "Harper's Bazaar", estampam fotografias suas, em grande tamanho e a cores.
Artistas disputam poses suas para seus quadros, as grandes casas de modas, como "Macy's", reivindicam a primazia de terem "descoberto" o turbante de Carmen Miranda, sendo que esta última, que fixa a data de 27 de julho, como sendo "gloriosa", está anunciando agora as maiores variedades de modelos a 2 dólares e 77 (cerca de sessenta rnil réis). Até mesmo as fábricas de cerveja orgulham-se da opinião da "Brazilian Bombshell" sobre seus produtos. Agora mesmo tenho diante de meus olhos um grande anúncio de meia página — "Tribune" — feito por "Rheinegold — Extra Dry", com seu retrato, debaixo do qual se lê: "My beer is the dry beer — says Carmen Miranda". E tem mais... Dorothy Kilgellen num artigo especial, fartamente ilustrado para o "New York Journal", estudando as mulheres que maior espaço ocuparam nas colunas dos jornais em 1939, classifica Carmen |
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Miranda em décimo lugar, numa lista de trinta personalidades. E diga-se de passagem Carmen teve apenas meio ano de América... Vejam quais foram as famosas representantes do sexo frágil: rainha Elizabeth, Vivien Leigh (Scarlet 0'Hara de "...E o vento levou"), Deanna Durbin, Eva Curie (que escreveu "Madame Curie, biografia de sua mãe), Katherine Hepburn, Carole Lombard (por seu casamento com Clark Gable), Mary Steele (a debutante que gastou 25.000 dólares em sua estréia na sociedade norte-americana), rainha Guilhermina, da Holanda (falada como mediadora da guerra), Carmen Miranda (que conquistou, com sua graça, toda a América), Greta Garbo (e seu romance com Stokowski), Mrs. Franklin Roosevelt, Barbara Stanwyck (por seu casamento com Robert Taylor), Mme. Chiang Kay-Shek (líder da guerra China-Japão), Katharine Cornell (atriz dramática), Marjorie Hills (escritora de um livro famoso: "Live Alone and Like It"), Alice Marble (desenhista de modas), Elsa Schiaparelli, Margareth Mitchel (autora de "...E o Vento Levou"), Geraldine, rainha da Albânia, Kirsten Flagstad (cantora de ópera), Sonja Henie, June Gale (figura da alta sociedade), Marian Anderson, Annabella (por seu casamento com Tyrone Power), Jacqueline Cochran (a primeira aviadora da temporada) e as Dionnes.
Carmen Miranda foi também classificada, em grande plebiscito de uma cadeia jornalística, como sendo a pessoa "mais famosa do mundo", sendo a primeira a rainha da Inglaterra e a terceira o prefeito La Guardia, de Nova York... |
E o que mais impressiona aos jornalistas deste grande pais é que Carmen consegue todo esse grande sucesso sem se despir em público, como a maioria das artistas de revista. A coisa é tão notável que o "Sunday Magazine", de Filadélfia, dedica uma página inteira, em quatro cores, a esse assunto, com um grande desenho de Carmen vestida de baiana, com um artigo onde extraímos estes tópicos:
"Carmen Miranda, uma cantora e dançarina da "Cidade Maravilhosa" que, na Broadway, chegou, viu e venceu. Logo na primeira noite de representação, ainda que os espectadores não compreendessem a letra das canções, não regatearam aplausos. Porque Carmen, apesar de não fazer gestos sugestivos, nem "remover véus" tem mais encanto e sedução que todas as bailarinas da Broadway juntas: ela é um fenômeno!
"A conquista realizada por Carmen na metrópole vem iniciar um novo ciclo de diversões, e já os nudistas de "Times Square" e da Feira Mundial começam a sentir a ofuscação de sua "arte". A despeito dos protestos da censura que achava a representação do nu em geral, e o nu da Feira em particular, como um atentado à moralidade, os organizadores de programas vinham mantendo esses espetáculos por achá-los lucrativos, mas agora eles começaram a perceber que La Miranda possui mais dinamite em um gesto do que todas as desnudas "girls" da Feira. |
Eduardo Guatsel também frisou:
"Nestes tempos de nudismo, é para notar que Carmen Miranda não despe uma só peça do seu vestuário e que seu incitante resume-se num ligeiro movimento dos quadris. Deve-se também registrar que a única parte do seu corpo visível são duas ou três polegadas de cintura entre a saia e a blusa. E já está se preocupando um pouco com isso."
E finalmente, Henry C. Pringle diz: "Muito embora Carmen se apresente na ribalta sem levantar um único véu de sua vestimenta, consegue provocar mais entusiasmo que todas as bailarinas de leque juntas.
"As "nudistas" dos inúmeros cassinos e teatros desta cidade já estão receosas com a ameaça que aparece à sua arte.
Mas não só as canções de Carmen impressionam (ela já gravou para a fábrica Decca, "South American Way", "Touradas em Madrid", "Que é que a baiana tem?", "Co-có-có-có-ró", "Mamãe eu quero", "Bambu-Bambu" e outras músicas de sucesso) — suas baianas, seus olhos (com aquela pinta marron...) e principalmente o jogo de suas mãos. A este respeito, o "Journal American", em página inteira, com seis fotografias que focalizam principalmente estas "extremidades mágicas", classificando-as admiráveis em ritmo e "capazes, por si sós, de entusiasmar a assistência mais fria". |
E seria longo continuar a enumeração de tudo quanto se diz e se publica sobre Carmen Miranda, sucesso absoluto, incontestável, definitivo. O cinema, quando "South American Way", da Fox, for exibido, e no qual ela aparece em tecnicolor para cantar algumas canções (ganhando a bagatela de 10.000 dólares, ou seja, mais de 200 contos...) se encarregará de elevá-la aos pináculos da fama. E, no entretanto, a "garota que tem it" continua a ser aquela mesma pequena simples, agradável, camarada, sem vaidade, que todos conhecem aí no Brasil.
A fama não lhe perturbou o senso da realidade, não lhe deu "máscara"... E em seu apartamento no Central Park, recebe os conhecidos que a visitam, com aquela mesma saudação amiga, que nos recebeu numa tarde chuvosa, no Rio de Janeiro: "Alô, nêgo!". (Revista "O Cruzeiro", Rio 30-3-1940) |
• CARMEN X FEIRA MUNDIAL
Alceu Penna — Março de 1940 — Nova York
"Uma verdade, que deve constituir o maior padrão de glória para Carmen Miranda é este: "salvou a Broadway da Feira Mundial de Nova York". Isto, para uma garota que chegou quase desconhecida, do Rio de Janeiro, e vem travar uma luta sensacional com o maior espetáculo apresentado nesta cidade de mais de oito milhões de habitantes, é muito. Na verdade, esta afirmação pertence à maioria dos jornalistas especializados da "cidade babel", que não se cansam em proclamá-la aos quatro ventos, sem que ninguém tenha vontade de contradizê-los. "Look", a grande revista semanal, de tiragens fantásticas, usou mesmo esta frase, para encabeçar a sua grande reportagem com Carmen Miranda na intimidade, em duas páginas com dez fotografias: "She saved Broadway from the World's Fair". (foi a revista "Click", de novembro 1939)
Outros, historiam o aspecto decadente que apresentava a rua mais famosa do mundo, abandonada pelos novaiorquinos e turistas, que deixaram os teatros vazios, para visitar a grande Feira, antes da chegada daquela que logo foi crismada como "Brazilian Bombshell" — a "bomba brasileira".
Henry C. Pringle, em "Collier's", num artigo encimado com a fotografia de Carmen Miranda, em cores, diz: |
"Daqui por diante será possível enfurecer um produtor somente chamando ao quinto mês do ano: "O alegre mês de maio". Isso porque maio de 1939 foi um dos piores meses na história dessa instituição sério-cômica, o teatro, devido à concorrência do pequeno "show" de Grover Whalen em Flushing Flats.
"Junho começou pior. Foi quando chegou a notícia da Broadway de que se ia iniciar um novo "show" musical, e dizia-se geralmente que os quatro homens que tiveram esta lembrança estavam loucos. De fato, dois deles não tinham sorte: Olsen e Johnson, cuja Hellzapopin situava-se entre as poucas produções que não tiveram sucesso. Mas os outros dois eram J.J. e Lee Shubert, que trabalhavam já havia algum tempo e estavam financeiramente bem.
"Oportunamente, o show musical "Ruas de Paris" foi levado à cena e foi bem aceito apesar de estar longe de ser sensacional. Mas a sensação foi uma garota do Brasil que se chama Carmen Miranda e que apareceu durante seis minutos exatos no fim do primeiro ato. Durante esse curto espaço de tempo a garota cantou quatro canções na sua língua. Essas canções não constavam do programa e ninguém, a não ser que houvesse brasileiros no auditório, tinha a mais vaga noção sobre o que versavam. Só quatro palavras eram compreensíveis e elas eram tudo o que Carmen sabia de inglês. As quatro com que terminava o último número eram: "The South American Way" (À moda |
sul-americana). Não queriam dizer muito, mas significavam que a moda sul-americana era realmente maravilhosa.
"Pode não haver uma ligação entre as duas coisas, mas os teatros começaram a animar-se imediatamente e a melhora refletiu-se logo por toda a Broadway. Carmen Miranda de fato dominou o "show", apesar de estar limitada a seus seis minutos, e alvoroçou os críticos, que foram obrigados a voltar à cidade, de suas férias nas montanhas e nas praias. O erudito Brooks Atkinson, do "New York Times", ficou tão assombrado, que fez referência a suas canções "espanholas". No dia seguinte teve de desculpar-se e dizer que ela cantava em português que é, naturalmente, a língua falada no Brasil. Mas nada podia ser menos importante do que sua língua.
"A estréia de "Ruas de Paris" foi agradável, mas a noite não se tornou grandiosa senão quando, cerca das 10 horas, seis rapazes, com vários instrumentos musicais sul-americanos, apareceram em cena seguidos por uma jovem vibrante, numa toilete exótica, envolta em jardas e mais jardas de colares de contas e com um chapéu-turbante com bananas, pêssegos, peras e outras frutas em cima. Era a senhorita que começou a cantar num "mezzo" suave, modulado e assombrosamente rápido. Era de estatura mediana, tinha cabelos castanhos-ruivos e olhos claros. Mas a mágica de sua atração consistia na maneira como |
parecia estar se divertindo enormemente; nisso e na sensação de que gostava de todo o mundo e especialmente dos homens."
Outros seguem no mesmo diapasão, contando a mesma história em palavras diferentes.
Carmen, porém, não conquistou somente os "ianques" — os sul-americanos "de língua espanhola", que aqui formam grande colônia, com muitos jornalistas correspondentes, e que em principio não acreditavam nesta brasileirinha que nem ao menos sabia falar inglês, renderam-se à evidência. Eduardo Guaitsel, um dos mais importantes, escreveu para "Cine-Mundial", entre outras coisas, o seguinte:
"Neste ano da graça de 1939, o teatro de Nova York estava em plena decadência. Peça que se apresentava era peça que fracassava. Então se se tratava de algum trecho musicado, o "fiasco" era maior ainda. Nestas condições chegou o verão, época em que se fecham os estabelecimentos que ganharam dinheiro. A um empresário que visitou o Brasil, veio-lhe na cabeça a idéia de contratar Carmen Miranda, entusiasmado com a sua maneira de apresentar as canções. A idéia teve êxito garantido. A platéia do Broadhurst parece uma colméia. A sala está à cunha, e a "estrela", que é Carmen, consegue despertar a atenção de quantos críticos andam soltos pela Broadway... muito embora nenhum deles entenda o que a artista canta. |
"O que este empresário apresentou em "Ruas de Paris" é uma mistura de quadros cômicos, bailes e pantomimas, tudo com sua música correspondente. E a Carmen, que aparece no palco, escondendo o seu busto debaixo de volumosos colares de todos os tamanhos, coroada com duas minúsculas cestas, repletas de pequenas bananas e outras frutas, inunda de graça e malícia toda a rua 44".
Aliás, não somente os jornalistas se mostram encantados com Carmen. O grande público não se cansa de elogiá-la — e, diga-se de passagem, entre aqueles que vão admirá-la no teatro ou nos "night-clubs", contam-se personalidades de destaque especial, na política, nas finanças e na arte. Vejam o que diz o cronista do "New York Journal":
"Há muitos anos que as rodas artísticas da Broadway não registravam um acontecimento que despertasse tanto a atenção dos círculos artísticos. Foi um contínuo suceder-se de "estrelas" e de "astros" que acorriam da Meca do Cinema para poder apreciar o fruto saboroso que a perfumada e cálida zona tropical do sul enviava para reanimar os sizudos homens de negócios da Quinta Avenida. "Todas as noites eram enchentes sobre enchentes a que se registravam. Todos queriam ver a "garota" que o longínquo Brasil nos enviara, o eco de seus sucessos chegou a penetrar até nas paredes da "Casa Branca" |
de Washington. E assim os triunfos se sucederam; cada vez os aplausos eram mais calorosos, e as propostas aumentavam.
"A Broadway saía do mormaço em que se achava encharcada, retomava nova vitalidade, quase que um sangue novo escorria pelas suas veias, e tudo porque Carmen Miranda, com as suas vestimentas exóticas, com o seu bambolear, com um indescritível movimento de mãos, conseguira fazer com que momentaneamente fossem esquecidas as crises, e voltasse a alegria, ruidosa, barulhenta.
"Era fatal! Qualquer personagem importante que chegasse a Nova York, imediatamente se informava do teatro ou do "night-club" em que podia ser vista "La Miranda", e todos faziam questão de cumprimentá-la.
"Greta Garbo, pela primeira vez em sua vida, entrou num "night-club" em Nova York. Foi cear no "Versailles", só para poder apreciar Carmen Miranda.
"Frederich March veio de Hollywood só para poder ver a revista "Streets of Paris" e fez questão de ir cumprimentar a "Brazilian Bombshell", a quem teceu os maiores elogios. "James Stewart assistiu à peça duas vezes e acabou convidando a Miranda para ir com ele à Feira. Carmen, porém, infelizmente, não pôde aceitar. |
"Errol Fiynn, com certeza, teve uma discussãozinha com Lily Damita, quando se mostrou tão encantado com o "quê que a baiana tem..." Norma Shearer ficou maravilhada com a "garota notável" e a sua baiana. De volta a Hollywood passou a ser uma fervorosa adepta dos turbantes e balangandãs; quanto a George Raft, esqueceu por uns minutos a Julieta (Norma Shearer) e foi todo olhos para Carmen Miranda.
"Mickey Rooney assistiu 5 vezes "Streets of Paris" e atirava beijos a Carmen... depois da quinta vez decidiu ir ao camarim de Carmen, onde houve troca de... autógrafos. Judy Garland foi ver depois a "garota notável" junto com Mickey Rooney e teve estas palavras: "Miss Miranda you are wonderfull". Robert Taylor e Barbara Stanwyck estiveram na primeira fila do teatro para ver de perto Carmen, e esta achou Robert um encanto, e Robert adorou a Carmen. Não sei o que Mrs. Taylor achou de tudo isto...
"Louise Rainer foi ao "set room" vê-la também. Carmen quase que não reconheceu uma mulher descabelada. Chester Morris veio pessoalmente ao camarim de Carmen para se queixar de que Miranda aparecesse tão pouco em cena. Katherine Hepburn foi cumprimentara nossa patrícia quando assistiu "Streets of Paris", semanas antes de estrear em "Philadelphia Story", no teatro junto ao de Carmen. Paul Muni, atualmente em Nova York, também ficou "fã" da Carmen, depois que pôde apreciã-la no "Waldorf Astoria". Don Ameche também pode ser considerado como um dos maiores |
"fans" da Carmen. Viu-a primeiro pessoalmente num "night-club" e depois foi apreciá-la na peça em que trabalhava.
"Dorothy Lamour, depois do espetáculo, foi ao camarim de Carmen e disse-lhe estas palavras textuais: — "Você bem podia me ensinar este movimento de mãos".
"Madeleine Carrol ficou "knock-out" com o "it" de Carmen e Carmen "idem" com a beleza da inglezinha. Al Jolson foi outro que foi ver Carmen de pertinho para não perder nada, mas tenho certeza de que não foi por isso que Ruby Keeler divorciou-se... Grace Moore foi ao teatro só para ver a Miranda, entrou atrasada e saiu somente quando soube que não tinha mais "bombshell". Ann Sheridan, a "oomph", esteve no "Waldorf" para assistir à estréia de Carmen. Alice Faye achou Carmen maravilhosa e fez questão de ir vê-la com Tony Martin, que está cantando agora "O Taboleiro da Baiana...". John Boles queria aprender músicas brasileiras e guarda no bolso um retrato de Carmen. E mais uma infinidade do pessoal de Hollywood veio ver o que a baiana tinha: Claire Trevor, Martha Raye, Claudette Colbert, Paulette Goddard, Joan Fontaine e Brian Aherne, casados de novo; Ethel Meerman, Betty Grable, Dixie Dumbar, Bert Lahar, Kitty Carlisle, David Niven, Edward G. Robinson etc, todos estes foram pessoalmente cumprimentar Carmen no camarim.
"Entre os personagens importantes citaremos Franklin |
Roosevelt Júnior e a senhora Roosevelt, mãe do presidente, que pediu a Miranda para autografar o seu menu do "Waldorf Astoria". O ministro da Finlândia, que telegrafou agradecendo a Carmen ter cantado em beneficio dos seus patrícios, dizendo: "Os finlandeses lhe querem agora tanto como os americanos".
Não é necessário dizer mais. A derrota da Feira Mundial, que deixou de ser a única coisa a interessar em Nova York, diante de Carmen Miranda, é evidente. Derrota aos pontos, é certo, pois o teatro de Lee Shubert, mesmo com grande lotação, mostra-se incapaz de conter as multidões que desejam ver a "garota que tem it" — e aqueles que não conseguem localidades, iam espairecer na Feira...
Agora a Feira Mundial está fechada temporariamente, e Carmen Miranda percorre as grandes cidades americanas e canadenses — Pitsburg, Toronto, Detroit, Chicago, St. Louis e Washington, com a troupe de Lee Shubert. Dentro de três meses teremos novos "rounds" deste combate singular. Mas agora Carmen já sabe um pouco mais de inglês, e sua fama cresceu cem por cento. Estou prevendo que a coisa não chegará a "esquentar". A Feira irá a "knock-out" em poucos segundos..." (Revista "O Cruzeiro", Rio 30-3-1940) |
• "Atualmente, sempre brilhando nos palcos da Broadway, Carmen Miranda é uma das figuras mais populares de Nova York. Um índice expressivo do seu prestígio está nos resultados do inquérito promovido pelo "Celebrity Service Inc.", a grande organização dirigida por Earl Clackwell e Ted Strong, a fim de conhecer as celebridades mais procuradas, naquela metrópole, para representações, programas radiofônicos, entrevistas e autógrafos com objetivos de publicidade. Basta dizer que a "embaixatriz do samba" obteve o segundo lugar na votação do público, ao lado de Talluah Ban-khead, a "estrela" de "Little Foxes". E os outros nomes sufragados foram nada menos que o Prefeito Fiorello La Guardiã, Eleanor Holm, Gertrude Lawrence e Orson Welles.
Carmen Miranda — podem os céticos colocar de lado as suas dúvidas teimosas — venceu nos Estados Unidos. Triunfou definitivamente. E o seu êxito é também o sucesso da música popular brasileira." (Revista "Carioca", Rio 10-2-1940) |
• Um mês após a estréia na Broadway, Carmen Miranda tinha sua fotografia estampada numa página inteira da revista LIFE (17-7-1939, página 34) com estas notas:
"A BROADWAY GOSTA DAS EXCITANTES CANÇÕES PORTUGUESAS DE MIRANDA"
Página da revista Life de 17 de julho de 1939 |
Perto do fim do primeiro ato de "Ruas de Paris", uma reluzente moça, usando uma fantástica coleção de colares de contas coloridas e brilhantes, atravessa as cortinas e avança para espantar a já deslumbrada platéia com um punhado de trechos de canções portuguesas incríveis. Em parte por causa de suas melodias estranhas e forte acento rítmico, são elas alguma coisa diferente, nunca antes ouvida numa revista de Manhattan, em parte porque não há qualquer indício para seus significados, exceto o alegre rolar dos insinuantes olhos de Miranda, essas canções e a própria Miranda são o ponto alto do espetáculo. Miranda é há anos uma popular artista dos clubes noturnos do Rio de Janeiro. Nada em "Ruas de Paris" lembra mesmo remotamente Paris, a não ser seu corretamente discreto homem, Jean Sablon. Outros realces da revista são o elenco de garotas do palco e dois extraordinariamente alegres comediantes do teatro burlesco chamados Abbott e Costello." |
Texto extraído do livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" de Abel Cardoso Junior Edição Particular do Autor - 1978  |