A CONQUISTA DE HOLLYWOOD 1941 |
pelo jornalista Alex Viany
"Enquanto Carmen visitava o Brasil, os chefões dos estúdios da 20th Century Fox tinham visto as seqüências fotografadas em Nova York. Zanuck e Cia. devem ter ficado realmente atônitos com a personalidade da estrela do samba, pois não é sempre que um grande estúdio dá um dos principais papéis femininos, num filme caríssimo, a uma cantora estrangeira, que, além de ser uma perfeita desconhecida para o público cinematográfico em geral, não sabe falar inglês nem para pedir um bife com batatas.
A Fox designou Zacarias Yaconelli, brasileiro radicado nos E.U.A. para ensinar inglês a Carmen.
O Yaconelli foi um anjo de paciência. Diariamente, no hotel em que Carmen estava hospedada, ou no camarim do Chez Paree, lia para ela as linhas do diálogo, ensinava-lhe as deixas. Carmen ouvia tudo atentamente, e tomava notas.
"Adotei uma fonética tão própria", conta ela, "que só eu era capaz de entender. Depois repetia tudo aquilo sozinha, no hotel, como um papagaio. A maior parte do tempo nem sabia o que estava dizendo. No dia seguinte o Yaco tomava a minha lição." |
E foi assim que Carmen Miranda estudou o seu papel em "Uma Noite no Rio". Decorou tudo o que tinha a dizer, e sabia exatamente quando devia dizê-lo. Também, isso não era vantagem: decorara também todo o script. Sabia-o de fio a pavio: tudo o que Don Ameche, Alice Faye e os outros artistas do elenco tinham a dizer.
"Na Fox, relembra Gilberto Souto (correspondente em Hollywood), "Carmen era uma verdadeira atração turística. Vendo-a trabalhar diante das câmeras, ninguém acreditava que não soubesse inglês. Não me recordo de tê-la visto errar ou esquecer uma só Unhado diálogo durante toda a filmagem. Pelo contrario: não só tinha tudo na ponta da língua, mas também ajudava Don Ameche e Alice Faye quando eles esqueciam do que deviam dizer." A própria filmagem de "Uma Noite no Rio", foi, assim, uma comédia. O primeiro dia, então, parece ter saído de um filme de Hollywood. Carmen ainda não conhecia Don Ameche, e ninguém se lembrara de apresentá-los um ao outro. Nervosa, mais nervosa do que nunca, estava ela no camarim, recordando a cena que deveria filmar dentro de alguns minutos — a primeira cena que faria com diálogos em inglês — quando alguém foi chamá-la, Mr. Ameche já a esperava. Foram apresentados às pressas. O diretor fez um rápido ensaio. E a primeira cena estava pronta numa só |
Carmen Miranda e Don Ameche em foto promocional de "Uma Noite no Rio" (That Night in Rio, 1941) © 20th Century Fox |
tomada: e olhem que era uma cena em que os dois desconhecidos se beijavam apaixonadamente.
Para Irving Cummings, o diretor, Carmen era a "one-take girl", isto é, a pequena que fazia tudo certo na primeira tomada de câmera. E Cummings gostava de exibi-la para os visitantes.
"Ela não fala uma palavra de inglês", dizia.
Os visitantes viam a tomada de uma cena, e achavam graça na piada do diretor.
"Experimentem conversar com ela", sugeria Cummings.
Os visitantes aproximavam-se da nova estrela, desatavam a falar inglês, e Carmen sorria, e dizia "yes, yes", só para não contrariar. Quando Yaconelli ou Gilberto Souto viam uma dessas situações, saíam em socorro do fenômeno que sabia trocadilhos em inglês sem saber inglês." (Alex Viany, Revista "A Noite Ilustrada", Rio 26-4-1949) |
Texto extraído do livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" de Abel Cardoso Junior Edição Particular do Autor - 1978  |