LICENÇA PARA O SAMBA ENTRAR NA RODA AMERICANA
- 1939 -

pelo jornalista e historiador
Abel Cardoso Junior
(1938-2003)

"A música popular brasileira terá agora a sua grande oportunidade na América do Norte. Carmen Miranda embarcará para os Estados Unidos no próximo dia 3, atendendo a vantajoso contrato que lhe foi oferecido. Sabendo que a mais conhecida cantora do Brasil deixaria o pais, onde tem rendosos compromissos artísticos, procuramos ouvir Carmen Miranda sobre a natureza do contrato que firmou. — Vou aos Estados Unidos, respondeu a "estrela" do broadcasting carioca, graças a um contrato que acabei de firmar com um dos maiores empresários do grande país. Trata-se do Sr. Lee Shubert. Ele aqui esteve como turista do "Normandie". Ouviu-me cantar no Cassino da Urca, e no dia seguinte recebi um convite para jantar com ele e Sonja Henie no navio francês. Foi então que recebi a proposta dessa temporada em Nova York.

Carmen Miranda escusou-se de falar no valor monetário do contrato. Quer evitar ferir suscetibilidades. Apenas asseverou que lhe é tão vantajoso que abandonou temporariamente todos os ótimos compromissos que tem com estações, cassinos e casas de discos desta capital.

— Fui contratada especialmente, diz Carmen Miranda, para participar de uma grande revista (1), de caráter cosmopolita, que será lançada na Feira de Nova York. Artistas típicos de todo o mundo apresentarão canções e

músicas populares de seu país. Coube-me a grande oportunidade e a grande honra de ser a intérprete das coisas brasileiras. Essa será a primeira chance importante do samba. Vou por isso empregar todos os meus esforços para que tudo dê certo, para que a música popular do Brasil conquiste a América do Norte, o que seria um caminho para sua consagração em todo o mundo. E Carmen afirma sorrindo:
— Vou botar tempero brasileiro no gosto e no "gôto" daquela boa gente... Nos meus números não vai faltar nada: canela, pimenta, dendê, cuminho... Vou levando vatapá, caruru, mungunzá, balangandãs, acarajé...
— E vão comigo seis baianas repinicadas, isto é, vou levar seis fantasias representando a gente do Bonfim... Mandei caprichar nesses trajes da nossa terra. Tenho feito tudo para que a música e a baiana sejam uma bomba por aquelas bandas.
— O contrato inicial é por oito semanas. Nesse espaço de tempo cantarei não só na Feira como em numerosos music-halls e night-clubs. Estás a ver que, se agradar, poderei me esticar por lá durante meses, um ano, dois, três... Depende do termômetro...
— E a língua, Carmen?
— Da candinha?...(2) Estou "isolada"...(3) Não pega nada. E quanto ao inglês, já estou "arranhando" mais ou menos. Tenho estudado muito. E lá em casa é o dia inteiro: "yes"
para cá, "very well" para lá, e outras coisas mais ou menos.
— Como quem vai a Roma e vê o Papa, uma vez nos Estados Unidos, darei um pulo a Hollywood para conhecer aquele recanto mundialmente famoso. Apenas para conhecer. Ali também terei oportunidade de me encontrar com três ótimas amizades: o casal Annabella-Tyrone e Sonja Henie, com quem aliás tenho correspondido ininterruptamente.
— Uma intensa curiosidade me torna impaciente por conhecer aquele país cheio de recordes mundiais, e o povo cuja consagração é batismo para a fama mundial. Mas, uma saudade antecipada já me faz olhar mais demoradamente para a gente boa e as coisas que aqui me cercam e com quem me acostumei tanto. É por isso que a minha bagagem irá mais pesada: irei levando saudades de vocês todos... Peço, pois, que se "concentrem" por mim... Se eu tiver sucesso, o Brasil sambará comigo, cantará comigo na maior feira do mundo, perante gente de todo o mundo.
— E - "so long, my boy'"... "So long..."
(DN, 29-4-1939)


Carmen Miranda com o astro de Hollywood Tyrone Power
em sua visita ao Rio em fins de 1938

MÚSICA QUENTE PARA OS IANQUES - 4 de maio de 1939
"O repórter resigna-se a parecer exagerado diante de todos que não tenham ido ontem ao embarque da "estrela" do nosso rádio de mudança para o céu ianque. Porque não havia gente no cais; havia, antes, uma multidão compacta que apostava em extensão e volume com o "Uruguai" imenso e negro, que estacionava em frente ao Touring Clube.

Da porta do Touring à escada de bordo a expectativa era tremenda quando lá chegamos, antes das 8 horas. Cada automóvel era ela... Mas o automóvel dela não chegava e cada vez mais o povo ansioso se acumulava Touring a dentro, formando um longo cordão humano de onde se destacavam cabeças femininas e masculinas, de quando em quando para espalhar o boato que todos desejavam ver realizado: "Agora é ela..."

A TERRÍVEL SIRENE
Torturando involuntariamente os fãs, na hora terrível da despedida, Carmen Miranda era a única a não querer que se confirmasse o boato. Mas as conversas ainda corriam num tom alegre e despreocupado, todos confiantes na chegada iminente, quando a voz terrível da sirene do "Uruguai" resolveu espalhar a dúvida por meio de um ensurdecedor

aviso:
— São oito e meia!
— E o navio sai às nove!
— Será que ela não vem?...

Até esta hipótese foi aventada pelos "fans" de Carmen Miranda quando faltavam apenas trinta minutos e a "estrela" não aparecia. Sua irmã Cecília olhava nervosamente a entrada por onde Carmen não entrava. Generalizava-se a angústia quando:

CHEGOU CARMEN MIRANDA
Quando o automóvel de Carmen Miranda parou em frente ao Touring o entusiasmo e o alívio gerais foram enormes. Apenas... não a deixaram saltar do carro. O auto estava completamente bloqueado e o cerco era perfeito. A muito custo os batedores da "estrela" conseguiram abrir caminho. Surgiu no meio do povo a cabeça risonha de Carmen Miranda envolta num turbante de seda "grenat", que estabelecia o mais vivo contraste com os seus olhos vivos e claros. O povo que a aclamava resolveu-se a abrir alas e, à medida que ela avançava através das dependências do Touring, a multidão que se abria para dar passagem fechava-se para acompanhá-la, formando o séquito...

Estouravam lâmpadas fotográficas e escoava-se povo por

todos os lados rumo ao guichê onde eram adquiridos os ingressos para o cais. Forçava-se o portão. Todo mundo era da imprensa, da Polícia, do Ministério do Trabalho: — E se o senhor não me deixar passar vai ver...

A ABORDAGEM
A entrada do "Uruguai" lembrava uma abordagem dos belos tempos da pirataria no mar das Antilhas... Entrava-se de qualquer maneira e foi a grande custo que as autoridades detiveram a multidão que não escolhia passagem e achava-se com pleno direito de tomar de assalto o navio norte-americano.

Carmen subiu a escada deixando no cais uma ovação e levando em torno de si uma verdadeira cadeia protetora, pois era quase de se temer um complô de fãs em desespero de causa que pretendessem guardá-la no Rio "a tout prix". Já a esperávamos dentro do navio e pensávamos que lá fosse fácil a nossa abordagem... Mas é que muita gente tinha pensado como nós. Não foi possível a Carmen Miranda parar sequer, depois de entrar no navio. Os que a acompanhavam, aliás com muito senso, impuseram-lhe o camarote:

— Deixem-me dizer adeus ao pessoal, gente!
— Você quer ou não quer ir aos Estados Unidos?...

O ASSÉDIO AO 102
Carmen Miranda entrou no elevador e desapareceu. En treolhavam-se todos. E agora? Mas a indecisão foi de um segundo. Canalizaram-se todos pela escadaria do navio em busca do camarote cujo número ninguém sabia. Uns por um lado da escada, outros pelo outro lado, todos se encontravam no meio do andar sem saber nada. Um estafeta salvou a situação:
— É o 102!
Não se esperou mais nada e de fato era o 102. À porta já se viam todos os que poderíamos chamar, se bem que impropriamente, "sereno". Não deixaram entrar mais ninguém. Mas Aurora Miranda, chorosa, intercedeu e reclamou com todos os seus legítimos direitos. César Ladeira parecia anunciar um número através da veneziana do camarote:
— Diga a Carmen que sou eu, César...
O fato é que entreabriram a porta, ou pretenderam entreabrir. Todos começaram, novamente, a alegar irrecusáveis direitos de entrada.
— Entrem os fotógrafos, autorizaram. Mas entrou muita gente sem máquina.

VAI "ABAFAR"
Quando entramos Carmen Miranda posava entre Almirante e Moreira da Silva, o tal. Não sabia a quem falar e o seu

camarote lembrava aquele outro de "Uma Noite na ópera", onde se reúne quase toda a tripulação. A todo o instante chegavam-lhe flores às mãos. As orquídeas espiavam através do papel celofane das caixas e as rosas tinham fundado canteiro por cima das malas, das caixas de sapato, dos vidros de perfume.

— Adeuzinho, Carmen, dizia-lhe um colega.
— Adeuzinho, meu nêgo, eu vou escrever a vocês todos. A muito custo chegamos um pouco mais perto da "star".
— Então, Carmen, vai mesmo disposta a anexar os Estados Unidos ao Samba?
— O samba nasceu para vencer. Por que não há de "abafar" na terra do "blue"?
— Já pensou num repertório fulminante?
— Pensei. Mas olhe que é duro achar um samba que não seja fulminante.

AS DESPEDIDAS
Se a porta do 102 não fosse nova tinha cedido. Porque já estava estalando assustadoramente e faltavam uns dez minutos para o "Uruguai" suspender a escada. Em rápido conselho radiofônico e familiar ficou resolvido que Carmen Miranda voltaria à entrada do navio.

Com medo que não houvesse tempo de voltar "ashore" os

"fãs" tinham diminuído o assédio.

Mais ou menos a salvo Carmen Miranda, sempre escoltada, chegou à entrada do navio:

— Onde está mamãe? Onde está mamãe? Era só o que ela perguntava então.

Uma "girl", muito loura e muito "iankee", dizia-lhe que já telefonara ao gerente do Carlton de Nova York para que a esperasse. Carmen agradeceu com um "thank you" grato mas breve porque a mamãe não aparecia. Apareceu, abraçaram-se e as lágrimas comprometeram a pintura. Misturaram-se em seguida com as de Aurora e Cecília. Os presentes deram uma folga, compreendendo que a hora não era propícia para novos assédios. O "Uruguai" avisou gravemente que estava na hora de ir embora e os "stewards" mostravam-se apreensivos com aquela gente de terra que parecia ter esquecido a existência de uma certa escada que seria erguida dentro em pouco.

— Good-bye, Carmen, desejamos todo o sucesso de que é capaz a sua "bossa".
— Vamos confiar nela e principalmente no samba. Good-

bye!

E guardamos o último daqueles claríssimos sorrisos que Carmen distribuiu ontem durante a noite inteira.

O ADEUS À CIDADE
Suspensa a escada assomou Carmen ao tombadilho, olhando a multidão de mãos que lhe diziam adeus. A ovação prosseguia, intermitente, e o lenço de Carmen Miranda não parava de dizer adeus. Depois ergueu mais o braço, como se dissesse adeus por cima da multidão. Acreditamos que Carmen Miranda se despediu naquele momento da "cidade maravilhosa", do Rio que a tornou famosa e que só não sente perdê-la agora por saber que se vai tornar mais famosa ainda; do Rio que talvez já pensa na sua volta, na Carmen que regressará com um inglês carregado de "slang" e com mais uma possessão para o império do Samba..."
(Jornal "Correio da Manhã", Rio 5-5-1939, página 14)

• "Carmen Miranda chegou de navio com os rapazes; não havia no porto um só representante consular para recebê-los. Gripada, febril, afônica, saiu de bordo para ir para a cama, num hotel da Central Park South. A pedido de Cícero Leuenroth, da Standard Propaganda, e a chamado dela, fui acudi-la. Ninguém teria ido esperá-la por ser... moça de boite. Chamei meu médico, Dr. Peter Kessler, que aplicou

uma medicação intensiva, a fim de que Carmen pudesse comparecer à audição de prova, no Shuberfs Theatre, na manhã seguinte. Lembro-me de Carmen Miranda, recuperando a voz e usando aquela linguagem tão tipica: "Isto aqui é uma terra hgftrfsxmkgrt! A gente fala, fala, e esses gringos "gttrusngfh" não entendem nada!"
(Francisco Silva Júnior, Jornal Diário de S.Paulo, São Paulo 16-1-1971)

"Três dias depois, Carmen Miranda se apresentava, com o seu Bando da Lua, naquele palco vazio, de refletores expostos, tendo por fundo de cena a parede de tijolos nus. Na platéia, às escuras, apenas meia dúzia de pessoas. Ao meu lado, o velho Lee Shubert transmitia por meu intermédio suas instruções; queria conhecer melhor o repertório de Carmen, para escolher apenas dois ou três números. Tencionava estreá-la em "Streets of Paris", uma de suas muitas produções teatrais, anunciada para daí a dias.

Em poucos minutos, a frieza daquele ambiente criava o calor e a alegria contagiante daquele ritmo buliçoso e sensual do samba. Depois, uma marchinha... E outro samba... O velho Shubert sorria em silêncio, pediu licença e retirou-se.
(ídem, Jornal "Diário da Noite", São Paulo 26-8-1955).

Os agentes de Shubert quiseram batizá-la como "The South American Bombshell". Carmen, no entanto, fez questão, desde o princípio, de ser identificada como "The Brazilian Bombshell".




Notas:
(1) "Revista" é como os shows no teatro eram chamados na época.
(2) "Candinha" era gíria para se referir aos "fofoqueiros".
(3) "Estar isolado" significava "estar protegido espiritualmente
      contra qualquer mal".
      (Doni Sacramento)

Texto extraído do livro
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"
de Abel Cardoso Junior
Edição Particular do Autor - 1978