MR. LEE SHUBERT CHEGA AO RIO - 1939 pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)
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"Acabamos de ler num de nossos jornais que Carmen Miranda irá para a Tupi com o ordenado de cinco contos mensais, além de várias garantias no contrato que firmou com essa estação.
A sua estréia no microfone da PRG-3 será no próximo dia 1º de dezembro.
Cinco contos por mês! Adivinho perfeitamente a admiração dos leitores.
Então uma cantora de sambas no Brasil ganha cinco contos mensais? Cinco contos para se colocar diante de um microfone, durante duas ou três horas, e cantar uma dessas músicas simples, fáceis, populares, inventadas pelos malandros dos morros?
Pois é, leitor amigo, cinco contos!
Há por ai muito cantor de cousas clássicas, com vários anos de estudos em "Conservatórios", com diplomas vistosos, com todos os incidentes e acidentes de um curso dificílimo, que não ganha a terça parte desse ordenado, que vive de outras cousas, que luta desesperadamente pela vida.
Há por aí também muito musicista nas mesmas condições, com o mesmo diploma, as mesmas prerrogativas e os mesmos embaraços.
O rádio trouxe essa inovação e, sobretudo, esta |
No dia 15-2-1939, quarta-feira, atracava no Rio o transatlântico "Normandie", com centenas de turistas. A imprensa carioca saudou com destaque a chegada dos visitantes, alguns deles famosos.
Sonja Henie, a estrela-patinadora do cinema, era um dos nomes de fama, senão o maior. "É bem pequena Sonja Henie. Saibam as brasileiras que são, em geral, da altura de Sonja Henie". (Jornal "Correio da Manhã", Rio 16-2-1939)
Não tão famoso, mas muito mais importante no seu setor de atividade, era Mr. Lee Shubert. "Chegou também, em viagem de turismo, o sr. Lee Shubert, que é o mais conhecido empresário teatral de Nova York. Verdadeiro magnata da arte teatral da grande metrópole, o Sr. Lee Shubert administrou, a partir de 1900, os teatros Herald Square, Casino, Princess Hippodrome, Liric, e vários outros. Chefe, atualmente da Shubert Theatrical Company, dirige e controla numerosos teatros, tanto em Nova York como em outras cidades dos Estados Unidos." (ibidem)
O "Normandie" demorar-se-ia bem pouco. No próprio domingo de carnaval, dia 19, zarparia do Rio. Nesse breve espaço de tempo, porém, Carmen Miranda, além de fazer amizade com a loura dinamarquesa Sonja, emprestando-lhe até uma fantasia de baiana para brincar, com destaque, o carnaval, teria a oportunidade de se apresentar perante Mr. Shubert, no Cassino da Urca.
Mr. Shubert aprovou Carmen, convidando-a até para conversações preliminares no "Normandie". Entretanto, seu lado prático de ver as coisas, que segundo alguns era o único lado que tinha, opunha-lhe |
certas dúvidas quanto às possibilidades de uma artista desconhecida, que nada falava do inglês, frente ao público norte-americano.
Partiu o "Normandie". Com Sonja Henie viajou a fantasia de baiana, presente de Carmen, que nem precisou de ajustes, pois tinham ambas o mesmo tamanho. A bordo, houve o tradicional baile à fantasia e Sonja mereceu o primeiro lugar, debaixo dos aplausos frenéticos dos passageiros, que, lembrando-se da outra baiana do Rio, gritavam: "Carmen! Carmen!"
Ao já não tão relutante Mr. Lee Shubert, Sonja deu a intimação final: "Se não a levares, levo-a eu..."
Acertados os termos do contrato de Carmen (400 dólares semanais), haveria uma outra batalha. A de levar o "Bando da Lua". Mr. Shubert só via Carmen e não compreendia a necessidade de levar os seis rapazes. Nos Estados Unidos, argumentava, havia músicos demais e milhares deles até desempregados. Seria fácil, para ele, contratar ótimos acompanhadores para Carmen. Mas Carmen sabia muito bem que sem o "Bando da Lua" não contaria com o verdadeiro ritmo brasileiro e ficou temerosa. Depois de muitas negociações, ficou combinado que Shubert pagaria três dos rapazes e Carmen os outros três. As passagens correriam por conta deles mesmos.
Oswaldo Éboli, o "Vadeco", pandeirista do conjunto, começou, então, a semana mais atribulada, quase |
A famosa patinadora dinamarquesa Sonja Henie em filme americano nos anos 1940 |
desesperada, de sua vida, com uma gripe e tudo, para obter as passagens pelo navio "Uruguai", o que iria levar Carmen. O "Uruguai" escalaria, brevemente, no Rio e, perdido, tão cedo não teriam outro navio para Nova York. Tudo iria, literalmente, por água abaixo, pois o Presidente Roosevelt e La Guardia, Prefeito de Nova York, já estavam inaugurando, a 30 de abril de 1939, a monumental Feira Mundial. Além das passagens, havia um mundo de coisas a providenciar: passaportes, roupas, problemas particulares de cada um.
Bem relacionado no mundo oficial, Vadeco apelou para a jornalista e poetisa llka Labarthe, diretora da "Hora do Brasil", subordinada ao gabinete do Sr. Lourival Fontes, chefe do famoso D.I.P. do "Estado Novo" (Departamento de Imprensa e Propaganda), que conseguiu junto à Dona Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha de Getúlio Vargas, e amiga dos artistas, o pagamento das passagens.
Como a verba governamental, para isso, não pudesse ser simplesmente dada, em pagamento o "Bando da Lua" apresentou-se em dois programas de "despedida" ao microfone da "Hora do Brasil", além do compromisso de representar, oficialmente, nosso país na Feira Mundial. Receberam, também, mais algum dinheiro para as despesas pessoais, entregue de forma desusada.
Conta Vadeco que, no tumulto do embarque no "Uruguai", aflitos pela não chegada desse dinheiro extra, e já desesperançados, receberam um embrulho de certo volume, que somente puderam abrir ao largo. Nervosos e |
apressados, desembrulharam-no, constatando estar recheado com centenas de cédulas de pouco valor, trocadas em Nova York ao câmbio de 20 mil réis por dólar.
Para Carmen, especialmente, essa viagem era uma temeridade. Gozando da mais alta posição artística e de rendimentos no Brasil e na América do Sul, apesar dos augúrios gerais de que iria "abafar a banca", a verdade é que, para o público americano, era mais uma latina anônima.
Um fracasso ou mesmo um êxito relativo teria efeitos negativos no prosseguimento de sua carreira no Brasil. Afinal, era a "Embaixatriz do Samba", um ídolo popular, com a obrigação de não falhar.
Devem ser registrados dois fatos dessa fase. Carmen durante quase todo o seu tempo de Brasil não se vestia de "baiana". De 1930 a 1939, a "baiana" não existiu para Carmen, se bem que tal imagem sobre a cantora se formasse. Suas músicas exaltavam a Bahia: "Na Baixa do Sapateiro", "No Taboleiro da Baiana", "Quando Eu Penso na Bahia", "Na Bahia", "Baiana do Taboleiro". Suas roupas (chapéus, lenços de cabeça), jóias, além do tipo de morena, reforçavam a "baianidade". A fantasia surgiu mesmo em 1939, no filme "Banana da Terra", quando ela cantou "O Que é Que a Bahiana Tem". Poucos dias antes da chegada de Lee Shubert. |
 Carmen Miranda em traje estilizado de baiana em 1939 |
Deixemos que a própria Carmen historie: "A Urca foi o meu trampolim. Nessa época nem sonhava em vestir uma baiana. Aliás, no Baile do Municipal desses tempos saudosos, marinheiros e baianas eram fantasias proibidas, vulgares demais.
Acontece que eu tinha de me apresentar cantando "O Que é Que a Bahiana Tem" e a letra da música explicava que ela tinha isto, tinha aquilo, coisas que a minha fantasia precisava ter. Então, pedi ao Trompowski que desenhasse uma baiana para mim. Foi a minha primeira fantasia. Era branca, com uma barra preta e um pão de açúcar ao lado. Para completá-la, comprei na avenida Passos uns colares de 1$500 e duas cestinhas de 7$000."
Sentindo o sucesso que a originalidade da vestimenta e a beleza da música brasileira faria nos E.U.A., Sonja Henie — a madrinha do meu sucesso — insistia tenazmente com Shubert para contratar-me. Ele não queria, mas acabou vencido pela perseverança da minha amiga e de um dia para outro vi-me em palcos americanos, cercada de aplausos por todos os lados.
O curioso é que eu temia botar aquela baiana. Pedi até a um repórter que explicasse o motivo por que eu botava uma fantasia tão vulgar." (Revista "O Mundo Ilustrado", Rio 29-12-1954, página 43) |
Carmen fez o traje. Valorizou-o. Ela nem foi a primeira baiana de Hollywood. Etta Moten Barnett apareceu de baiana no filme "Voando para o Rio" (RKO, 1933), com cestinha na cabeça e tudo. No elenco, Gene Raymond, Ginger Rogers, Fred Astaire e o nosso Raul Roulien.
Etta Moten Barnett (1901-2004) como a "cantora carioca" no filme "Voando para o Rio" (Flying Down to Rio, RKO 1933) |
No Brasil, já em 1928, Aracy Cortes era baiana no teatro de revista. A conclusão é que o traje não fez Carmen...
O segundo fato é que começava também a união artística de Carmen com o "Bando da Lua". |
Carmen Miranda em fantasia de baiana no Cassino da Urca antes de embarcar para os E.U.A. (Rio, 1939) |
Texto extraído do livro "Carmen Miranda - A Cantora do Brasil" de Abel Cardoso Junior Edição Particular do Autor - 1978  |