O SAMBA NOS ESTADOS UNIDOS
Revista "O Cruzeiro" - 13 de novembro de 1948

por Alex Viany

"Sei que contribui bastante para a divulgação da música popular brasileira no estrangeiro. Mas, também, a verdade é que tive muita sorte. Em primeiro lugar, tive sorte por ter sido a primeira a trazer números como "Tico-Tico", "Mamãe eu Quero", "Cai, Cai", "O que é que a baiana tem?", "Na Baixa do Sapateiro", "No Tabuleiro da Baiana", e tantos outros para os Estados Unidos. O público americano nunca tinha ouvido coisas assim, e, naturalmente, ficou entusiasmado - mesmo não compreendendo as palavras. Além disso, tive grande sorte de vir acompanhada pelos rapazes do antigo Bando da Lua. Eles trouxeram o ritmo brasileiro - que a maioria ab-soluta das orquestras ainda hoje confunde com o cubano e o mexicano. Sem esse rítmo, eu teria sido apenas mais uma cantora latino-americana. Você bem sabe como as músicas brasileiras ficam acubanadas e amexicanadas quando caem nas mãos das orquestras americanas. Imagine so, eu cantar "Tico-Tico" com compasso de rumba! Não é possível! É preciso haver pandeiro, tamborim, cuíca e violäo. De outro jeito, não é música brasileira nem nada. Pode ser muito bonito, pode ser muito ritmado, mas é rumba, guaracha ou bolero. Samba é samba - e, por enquanto, só brasileiro sabe tocar samba. Apesar de todo o esforço que se tem feito, os americanos não distinguem o samba das outras músicas populares da América Latina. Ainda temos muito trabalho à frente, mas acho perfeitamente possível que o samba venha a desbancar a rumba nos clubes e nos salões americanos."


Carmen Miranda com o correspondente brasileiro Alex
Viany num intervalo de "Sonhos de Estrela" (1945)

"Naturalmente", diz Carmen, "não é qualquer samba brasileiro que faz sucesso nos Estados Unidos. Há sambas lindíssimos que jamais seriam compreendidos aqui. Quando o público americano gosta de uma coisa, gosta mesmo. Foi o que aconteceu com o "Tico-Tico", que continua a ser muito executado, e que ate já passou a ser uma espécie de clássico popular. Com a "Aquarela do Brasil", "Na Baixa do Sapateiro" e poucos outros, o "Tico-Tico" forma o pequeno número de sambas que os americanos sabem reconhecer ao primeiro compasso. Por isso, são os únicos que as orquestras tocam sempre. E quando eu tento cantar algo novo, algo diferente, nunca sou tão aplaudida como quando canto um desses. O mesmo acontece com todos os outros cantores e músicos brasileiros radicados nos Estados Unidos."

Seja como for, Carmen nunca desiste de apresentar novos sambas. Nem sempre pode fazê-lo no cinema - mas sempre o faz em teatros e clubes noturnos. Entre um "Tico-Tico" e um número cantado em inglês, ela pede silêncio à platéia e explica: "Vou cantar um samba que ninguém conhece nos Estados Unidos. É um samba muito bonito, e a letra diz..." Assim, aos poucos, Carmen procura ir habituando o público americano à música popular brasileira."