Revista Cinelândia - Rio, fevereiro de 1955 |
"Foi na minha viagem à Europa (1953) que esse "negócio" começou. Passei noites e dias quase sem dormir, realizando uma "tournée" deveras cansativa. E isso após anos e mais anos também de atuações constantes nos Estados Unidos, ora em Nova York, ora na Califórnia. Estive na Itália, na França, na Finlândia, na Dinamarca, etc. Mas, se me perguntarem o que achei de Roma, Milão, de Helsinque, de Estocolmo ou Paris, não saberei responder. Nem vi as cidades por onde passei. Era do teatro para o hotel, em todas elas, numa vertigem incessante de ação. Houve pequeninas cidades italianas que me acolheram com um entusiasmo tal que me derrearam por completo... Vocês sabem como é, não? Nos grandes centros, existe o policiamento que impede aos fãs uma aproximação total e contínua aos artistas que os visitam. Nos lugarejos, porém, é tudo amizade, calor humano de admiração, e... lá se vai a tranquilidade da gente! Adorei tudo isso, esforcei-me ainda mais para agradar a esse público assim tão sincero, mas acabei esgotada. Fiz o resto da viagem, e das minhas apresentações, já fortemente abalada. De volta aos Estados Unidos, o médico me aconselhou umas férias de três meses... que não tomei. Até que um dia aconteceu o inevitável: sobreveio o colapso nervoso e tive de ser recolhida a um hospital, em Nova York, para onde fui transportada de Kentucky, onde me achava trabalhando.
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Saindo de lá, prossegui na existência habitual: "shows" em vários lugares, televisão, tanto em Nova York quanto na Califórnia, na N.B.C. e na C.B.S. e outras semelhantes. Não que isso me desagrade. Em absoluto. Fora do palco sou como peixe em terra e com sede...
(Pára um pouco, sorri, e faz blagues com a sua doença:) Vocês já ouviram falar nessa espécie de "frisson" que sacode o artista que se defronta com um novo público, embora muito habituado a isso? Pois é... eu não escapo nunca desse arrepiozinho. Mas, quando comecei a ficar doente, notei que o "frisson" virava tremedeira (as mãos é que tremiam) e que o rosto se banhava então de suor, como se as luzes do proscênio fossem verdadeiros "spotlights" de Hollywood (dos estúdios, para as filmagens) a incendiar-me as faces. Aí é que compreendi a extensão do desequilíbrio nervoso produzido pela exaustão de que me falara já o meu médico californiano, numa advertência ainda somente de amigo." |