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"JORNAL DIÁRIO DA NOITE" - São Paulo, 4 de dezembro de 1954 "- Almirante!", gritou Carmen, ainda no alto da escada do avião, ao identificar o velho companheiro. Foram as primeiras palavras que pronunciou. Abraçou o Almirante, e chorou, chorou copiosamente, nervosamente. E foi identificando, uma a uma, as pessoas que a rodeavam, cercavam, abraçavam. "Dr. Paulo Machado de Carvalho, Araci, Nestor!". Ficou comovida em rever Araci de Almeida e contente em encontrar, no aeroporto, o Nestor Amaral. Havia um receio de que Carmen evitasse repórteres e fotógrafos. Mas ela posou para todos, cumprimentou todo mundo, transformou em alegria, satisfação, toda a emoção que ficou tomada nos primeiros minutos. "Minha gente, estou feliz! Não sei dizer outra coisa. Como é gostoso voltar para casa!" "Não paro de trabalhar há catorze anos. Minha vida tem sido uma correria dos diabos. No ano passado estive na Itália. Desde que voltei aos Estados Unidos, depois de viagem à Europa, não pude parar, trabalhei demais. Fiquei doente por isso. Precisava de umas férias. Lembrei então de voltar ao Brasil. Agora já me sinto melhor. Não esperava ter uma acolhida tão simpática. É emocionante, juro. Depois de tanto tempo, saber que ainda querem a gente. Estou surpresa com a recepção dos paulistas. Não estava no programa, mas prometo voltar daqui duas ou três semanas. Nunca me esquecerei desta atenção da imprensa, do povo. Acho que vou chorar de novo..." "Estou contente nos Estados Unidos, mas nunca deixei de ser brasileira. A embaixada do Brasil nos Estados Unidos não é em Washington, é em minha casa. Lá recebo com carinho e atenção todos os brasileiros que me procuram. Quando alguém chega na porta, não pergunto quem é. Se é brasileiro pode entrar. Tenho trabalhado sem parar, mas quase que só em "boites" e em televisão. A televisão norte-americana roubou pelo menos cinquenta por cento do público dos cinemas. São Paulo tem três estações de televisão? Oxalá tenha vinte... Há campo para todos. Não pretendo trabalhar, aqui. Filhinho, vim descansar." ![]() Carmen Miranda em escala no aeroporto de Congonhas antes de seguir ao Rio (São Paulo, 3 de dezembro de 1954) Alguém pergunta se ela veio "sassaricar". Carmen fica confusa e pergunta ao repórter o que é isso. Sua gíria está meio atrasada, mas o português é gostosíssimo, sem um pingo de sotaque. "Antes de embarcar para cá, assinei contratos, para breve, para cantar no Japão e Hong-Kong. Não sei o que eles querem comigo lá. Não vão entender nada", continua Carmen Miranda. Há uma turma do "deixa disso", que insiste em interromper, falar em nome dela, dizer que Carmen está cansada e que quer respirar um pouco de ar livre. Mas Carmen Miranda não se dá por achada. Faz pose para os fotógrafos. Atira um beijo para os fãs da televisão. Movimenta os braços, as mãos, repetindo gestos característicos que são a sua "marca". Chegou a cantarolar um pouco, dizer uma frase do "Boneca de Piche", no microfone de uma emissora. Quando o comandante da aeronave vem convidar Carmen Miranda para voltar ao avião e seguir viagem, ela ainda tem sorrisos e alegria, brilham seus olhos e ela confessa: "Estou feliz, estou feliz como nunca. Muito obrigado para todos, por ainda se lembrarem de mim. Eu, juro, jamais esqueci este país, a minha terra. Sempre fui e continuo sendo a mesma Carmen Miranda. Olhe os meus olhinhos verdes. São os mesmos, são os mesmos..." O repórter voltou feliz do aeroporto. Esperava uma Carmen doente, que vinha morrer no Brasil. Encontrou-a viva, forte, feliz, dinâmica, moça, irradiando vitalidade e energia. Esperava encontrá-la americanizada e encontrou-a carioquíssima, tão Carmen Miranda quando foi para os "States". Podem os seus fãs, todos nós, ficarem sossegados, tranqüilos, felizes. Carmen Miranda voltou mais Carmen Miranda do que nunca. Quando o repórter pediu uma declaração autografada para Carmen Miranda, ela sugeriu: "Deixe que eu só assine. Escreva você mesmo apenas "Saudades do Brasil", pois acho que, além do excesso de trabalho, catorze anos sem férias, um dos mais importantes motivos de minha doença era isso, saudades. Estou aqui e já estou boa!" |