REPORTAGEM DA "REVISTA O CRUZEIRO"
Rio de Janeiro, 20 de agosto de 1932

INQÚERITO ENTRE OS MELHORES INTÉRPRETES DA MÚSICA TÍPICA BRASILEIRA

por Raul Lellis

Carmen Miranda, "a pequena que tem it na voz", segundo a classificação de um de nossos cronistas elegantes que também faz romances. "Tenho um novo amor..." é o seu maior sucesso.

A gente não sabe ao certo o que dizer sobre Carmen Miranda, tantas são as coisas bonitas que ela inspira e que merece. Brasil Gerson chamou-a "o samba" - "it", "a tentação musicada"; Pascoal Carlos Magno afirma que ela é a "pequena que o Rio namora sem querer, no rádio e no disco".

Josué de Barros descobriu Carmen Miranda; o Rio aclamou-a depois, apontando-a à admiração do Brasil inteiro, mandando-a a Buenos Aires para que ela fosse mostrar lá fora o samba que ninguém conhecia, o samba moço e cheio de vitalidade dinâmica.

A gente não sabe se a canção foi feita para ser cantada por Carmen, ou se Carmen nasceu para cantar as nossas coisas. O que se sabe, sim, é que uma e outra se ligam inteiramente. Como era bonito e engraçado "Tá hi" cantado por Carmen Miranda. E com que jeito ela dizia, esticando a vozinha delicada, o começo da marcha de André Filho: Bamboleô, bamboleô / A vida eu levo cantando, p'rá não chorá...

"Good-bye, boy", a canção de Assis Valente, se não fosse cantada por Carmen Miranda, parece que não poderia ser cantada por mais ninguém, porque ninguém mais saberia dar-lhe a graça que lhe dá a morena dos olhos travessos.

As respostas de Carmen Miranda à "enquette" de O CRUZEIRO vieram cheias da alegria deliciosa que ela põe em tudo:

1º - Quando começou a cantar?
- Eu era um taquinho de gente, quando comecei a cantar...

2º - Das suas criações, qual a que mais lhe agrada?
- "Tá hi". Tenho uma saudade quando o canto!...

3º - Dos autores de músicas populares, qual o que mais aprecia?
- Eu gosto de todos... os que me dão boas músicas.

4º - Que pensa da música popular brasileira?
- Eu penso tanta coisa que nem posso escolher o que dizer.

5º - Que gênero lhe é mais simpático?
- Gênero alegre. Esse que não faz chorar nem dá dor de cabeça. Por exemplo, a marchinha.

6º - Que prefere: o disco, o teatro ou o rádio?
- O disco, porque roda como a vida.

7º - Como encara o apoio que agora emprestam aos autores nacionais?
- A crise é tão grande e os nossos músicos de reconhecido mérito são tantos que faz bem vê-los conhecidos e amparados.

8º - Que futuro julga destinado à música popular do Brasil?
- Um futuro belo... do outro mundo.

9º - Que pensa do público brasileiro? e qual o gênero de música que a ele mais agrada?
- É um público muito bom. Gostoso... Bate palmas, manda flores e namora a gente de longe, graças a Deus.

10º - Como e por quê produz? (ou canta?)
- Eu não produzo. Canto porque gosto de cantar.

11º - Em que lhe parece residir o segredo do seu triunfo?
- Triunfo? Quem foi que disse isso?

12º - Qual a sua maior ambição?
- Vender discos, cantar em rádio. E conseguir com a minha voz e com o samba o necessário para envelhecer sem cantar.

13º - Que relação julga que existe entre o amor e a música?
- Se relação existe é no seguinte: na música, o coração vem à boca; no amor, a música está no coração.