T'AÍ - P'RÁ VOCÊ GOSTAR DE MIM |
(Estribilho)
Taí, eu fiz tudo p'rá você gostar de mim
Oh! meu bem, não faz assim comigo não!
Você tem, você tem que me dar seu coração! (bis)
Meu amor não posso esquecer
Se dá alegria faz também sofrer
A minha vida foi sempre assim
Só chorando as mágoas que não têm fim
Essa história de gostar de alguém
já é mania que as pessoas têm
Se me ajudasse Nosso Senhor
eu não pensaria mais no amor

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Comentários: Até então, não era do meu feitio compor músicas de gênero tipicamente popular, talvez devido ao medo da má interpretação. Naquela voz, entretanto, encontrava toda a maneabilidade, toda a sensibilidade, toda a força de transmissão que era possível exigir-se de um intérprete. Ainda conversava com Abreu da Casa Melodia, quando, eis que ele exclama: "Olhe só quem vem aí... A Carmen em carne e osso..." Assim foi o meu primeiro encontro com aquela que seria a nossa maior embaixatriz musical! Logo me cativaram a sua graça e alegria radiante. Conto a ela o que se passara e a minha disposição em escrever algo para ela. Carmen agradece sensibilizada, dizendo que já me conhecia através daquela "musiquinha" que surgira há pouco, mas já cativara a muitos, a "Maringá"... (sic) Deu-me o seu endereço, na Travessa do Comércio, e fiquei de procurá-la, com a música debaixo do braço. Ao regressar à minha casa já estava com a melodia na cabeça e no dia seguinte batia à porta dos Miranda em busca de Carmen. Havia uma escadaria muito comprida e a casa em que morava ficava bem no alto. Toquei a campainha e surgiu de lá uma moça que eu não reconheci à primeira vista. Exclamou: "Sou eu mesma... Você não está me reconhecendo porque estou sem a máscara de ontem... Suba, suba." Diante de seu maior espanto, dei-lhe a música prometida, não havia 24 horas ainda. Dispunha-me a lhe ensinar a cantar a marchinha, que outra não era senão a depois célebre "Taí" (P'rá você gostar de mim), quando ela, com muito espírito e seus olhos brejeiros, vivos, maliciosos, fez a seguinte observação: (Piscando um olho): "Não precisa me ensinar que na hora da bossa eu entro com a boçalidade..." Como ela era inteligente, espirituosa; como sabia tirar partido de uma conversa, uma frase, um dito, para fazer humor, fazer com que os outros rissem... "Taí" teve um ano inteiro do mais estrondoso sucesso. Era o que se ouvia por todos os cantos da cidade. Que grande satisfação me deu... E, no entanto, quando de sua gravação, me aborreci com a orquestração, ficando mesmo indignado e quis armar um bruto barulho. O que salvou foi a perfeita interpretação da Carmen. O acompanhamento parecida bandinha de circo..." Esclarece Joubert que o Sr. Abreu, ao notar a entrada de Carmen na Casa Melodia, exclamou, apontado-a para ele: "Taí a nova cantora..." Esse "Taí", tão espontâneo, imediatamente começou a trabalhar no seu cérebro, inspirando-o a perceber, em lapsos de segundo, toda a composição. Joubert, por sinal, costuma dizer, modestamente, que com ele acontece esse fenômeno de "sintonizar" as músicas já prontas num outro plano, cabendo-lhe apenas recolhê-las. Se para o autor "Taí" não tinha finalidade carnavalesca, o fato é que foi cantadíssima no carnaval de 1931 e durante todo o ano de 1930. Foi cantada no próprio carnaval de 1930, visto que lançado o disco nas lojas chegou ao público uma semana antes dos festejos, embora sem tempo para uma divulgação eficiente. "Iaiá-Ioiô", em 1930, foi mais cantada. Embora no disco conste marcha-canção, nos registros da gravação está anotado marcha-carnavalesca. E marcha-carnavalesca também está na propaganda mandada estampar pela Victor na imprensa, dias antes do carnaval (O País, 23.2.1930, p.8), tudo a confirmar que todos, à exceção do próprio autor, levavam fé no carnaval, um carnaval que começou no sábado, 1º de março, dia das eleições presidenciais, vencidas por Júlio Prestes. "P'rá Você Gostar de Mim" acabou virando "Taí", modo pelo qual era pedida nas lojas. "E o disco pôs-se a bater todos os recordes de venda. Joubert ganhou, inclusive, e por cabeça, uma aposta com Mário Reis, o qual achava que "Jura" tinha ido além. "Taí" vendeu cerca de 35.000 discos, façanha extraordinária na época." O compositor e pianista Hervé Cordovil, que trabalhou na Victor, é testemunha de que os discos de Carmen, antes do lançamento, já tinham uma reserva de de 15.000 exemplares das lojas. Para se ter uma idéia, uma venda de 1.000 discos já era muito boa para qualquer cantor. Rogério Guimarães um dia mandou o "office-boy" da Victor entregar o primeiro pagamento de Carmen: um cheque de 15 contos de réis, uma verdadeira fortuna! O rapazola saiu da Victor e subiu a escadaria da pensão. No salão viu uma moça vestida simplesmente, ajudando nos trabalhos. Perguntou pela Carmen Miranda. "- Sou eu mesma!" O rapazola não acreditou: "- Que é isso! Você não é a Carmen!" E voltou com o cheque. Era a Carmen mesmo. Mário de Andrade, comentando o fenômeno das vogais abertas, observa que o cantor Floriano Belhan tem, "além do admirável nasal, algumas vogais não tônicas, discretamente abertas e que, apesar das afirmativas em contrário, nos querem parecer bem nacionalmente timbradas. Também a senhorita Carmen Miranda, em "P'rá Você Gostar de Mim" (Victor, 33263) concorre com um "no ámor" mais discutivelmente nacional. É de crer-se talvez que, no canto, estas vogais abertas de cantores solistas, não derivem da maneira inculta do cantar carioca, mas antes sejam uma consequência de fortes acentuações." |