CARMEN MIRANDA - O MITO BRASILEIRO

Revista "Retrô" nº 6
São Paulo, Fevereiro de 2006

Considerada um dos maiores ícones das artes cênicas brasileiras, Carmen Miranda encantou a todos com seu talento, alegria e expressividade, características que mantém até hoje sua imagem viva entre fãs e
admiradores no Brasil e no mundo.


Nascida em Portugal, em 9 de fevereiro de 1909, Maria do Carmo Miranda da Cunha veio com a família para o Brasil no mesmo ano e tornou-se a primeira artista internacional que o País já produziu. Sua carreira de cantora teve início em 1929, quando gravou o primeiro disco, mas a consagração veio um ano depois, com o lançamento da marchinha de Carnaval "Pra você gostar de mim (Taí)". Também conhecida como a Pequena Notável, apelido dado pelo radialista César Ladeira, Carmen foi uma grande cantora do rádio, a mais famosa artista dos discos, atriz de cinema, teatro e teve uma brilhante carreira internacional, principalmente nos Estados Unidos, divulgando como ninguém o ritmo e a cultura brasileira. Gravou 322 músicas, atuou em seis filmes do cinema nacional, em mais 14 longas-metragens em Hollywood (EUA) e apresentou-se em espetáculos no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro (RJ), Broadway, em Nova lorque (EUA), e outros palcos das Américas e Europa.


Peças da Exposição
Carmen Miranda Para Sempre
Os 50 anos de seu falecimento foram completados em agosto do ano passado, mas, para os inúmeros fãs, a imagem de Carmen Miranda permanece inabalável. É o que também defende o paulistano Ricardo Kondrat, 42, que montou em um quarto de sua casa, na zona leste de São Paulo (SP), um mini-museu em homenagem à artista, repleto de fotos, revistas, filmes, livros, incluindo 104 discos originais - ela gravou 142 - entre outros ítens colecionados ao longo de 27 anos.

0 gaúcho Newton Cunha, antiquário e morador do Rio de Janeiro há 40

anos, também coleciona ítens da artista desde 1982. Além de fotos, esculturas de bronze e outros objetos, Cunha orgulha-se de ter adquirido peças raras como a carteira profissional de Carmen Miranda quando trabalhava como cantora da Rádio Mayrink Veiga, em 1935 - disputada em um leilão na década de 1990 - e uma cigarreira em marfim com dedicatória à diva, comprada na feira de antigüidades da Praça 15, no Rio de Janeiro. 0 antiquário não deixa de ressaltar que Carmen Miranda foi a primeira artista que divulgou com sucesso o nome do País no exterior, fato que o motivou a mergulhar nesse colecionismo.

Já o paulistano Ricardo Kondrat se encantou pelo mito quando tinha 15 anos, depois de assistir ao filme "Morrendo de Medo". "Cheguei em casa e perguntei à minha mãe quem era a mulher com tudo aquilo na cabeça. Comecei, então, a procurar seus discos em sebos, saber mais de sua biografia e não parei mais", revela, recordando do primeiro LP que comprou, "20 Anos de Saudade - A pequena notável", de 1975. Atualmente, acumula mais de 2 mil itens, um profundo conhecimento de seus trabalhos e muita admiração pelos gestos, expressões e modo de vestir.


Kondrat em seu minimuseu


Artigos pessoais doados pela família
de Carmen ao colecionador

Em meio a tantas raridades como o primeiro long-play lançado, cópias da certidão de nascimento e da certidão de óbito de Carmen Miranda, Kondrat destaca, entre suas peças preferidas e mais valiosas, objetos pessoais. Entre eles, um par de tamancos e uma bolsa que ganhou dos irmãos da artista, em 1985. Também da família, exibe com orgulho fotos suas com os irmãos Oscar, Lana (*) e Aurora Miranda. Na recém-lançada biografia escrita por Ruy Castro, Ricardo é citado e contribuiu com depoimentos. "Os fãs sempre sabem de uma ou outra curiosidade que podem ajudar o autor", afirma o aficionado.

Museu histórico
Tanto para quem mora quanto para quem esta só de passagem no Rio de Janeiro, o Museu Carmen Miranda, no Parque do Flamengo, é endereço obrigatório para quem pretende conhecer e relembrar a maior artista brasileira de todos os tempos. Inaugurado em 1976 pelo governador Faria Lima, o museu possui acervo doado pela própria família de Carmen. São cerca de 3.000 peças, tais como trajes de shows e sociais, bijuterias, adereços de palco, sapatos, fotografias, objetos decorativos, troféus, material de propaganda, retratos, caricaturas, vídeos, desenhos, contratos, roteiros, discos, partituras manuscritas e impressas. Anualmente, são realizadas duas grandes exposições: em fevereiro - mês do aniversário da artista - e outra em agosto - mês de sua morte.


Cópia do traje usado no filme "Serenata Tropical", de 1940

Marchinhas de Carnaval
A imagem de Carmen Miranda sempre esteve muito ligada ao Carnaval, principalmente durante a década de 1930, quando costumava lançar pelo menos duas músicas para a ocasião. Além do primeiro grande sucesso - a marchinha "Pra você gostar de mim (Tai)", de Joubert de Carvalho -, também fizeram sucesso "Querido Adão", de Benedicto Lacerda e Oswaldo Santiago, e "Mamãe eu Quero", composta por Jararaca, que ganhou âmbito internacional quando Carmen Miranda a lançou no filme "Serenata Tropical", em 1940. Isso sem falar em outro importante filme sobre o tema, de 1936, a comédia "Alô, Alô, Carnaval".

"Sem dúvida, a atuação de Carmen no Carnaval contribuiu muito para a difusão de sua imagem no Brasil", afirma o produtor carioca Fabiano Canosa, fã, amigo da família de Carmen e colecionador de sua memória. Natural da capital carioca, sua mãe era corista do Cassino da Urca e quando a Pequena Notável faleceu, em 1955, tinha 12 anos de idade. "Fiquei extremamente comovido com a homenagem feita por uma rádio durante 24 horas, ao som de 'Adeus Batucada'". Logo depois, o produtor, que já colecionava fotos de atores famosos do Brasil e exterior, passou então a garimpar recortes de revistas e jornais sobre Carmen Miranda, de quem admirava, sobretudo, a ousadia. "Era uma menina muito esperta para a época. Em plenos anos 1930, saía a


Fabiano Canosa, colecionador e curador
da mostra Carmen Miranda Para Sempre
noite, andava de terno e gravata", recorda.

Ao começar a trabalhar com cinema, Canosa teve acesso à novas peças iconográficas, incluindo fotos inéditas. E quando foi morar nos Estados Unidos, ampliou ainda mais o acervo com imagens, discos e cartazes de filmes. "Consegui um bom e importante material, principalmente da fase americana de Carmen, que foi de 1939 ate 1954. Mais do que colecionar, Canosa também contribuiu na divulgação dos filmes da artista em Nova lorque (EUA), incluindo o relançamento do longa "Entre a Loura e a Morena", em 1972.


Eterna
Atualmente, parte do acervo de Fabiano Canosa compõe a mostra "Carmen Miranda Para Sempre", que esteve no MAM da capital carioca até o mês de Janeiro e que será exposta em São Paulo, de 8 de março a 23 de abril, no Memorial da América Latina. "Há três anos uma pessoa que representa a família viu o material que eu tinha e propôs que trabalhássemos a idéia de uma exibição", comenta Canosa, curador da exposição. Para brasileiro nenhum deixar de visitar, a mostra-espetáculo reúne mais de 700 peças. Coordenada pela CMG Worldwide, tem direção de arte e cenografia de Claudio Amaral Peixoto e Claudio Fernandes, e

consultoria e textos de Ruy Castro. São trajes, jóias, partituras, discos, artigos de jornais, capas de revistas e fotos do acervo da família, de colecionadores e do Museu Carmen Miranda, no Rio de Janeiro.

Na mostra, a trajetória da artista é traçada de forma não-linear, sem começo e fim definidos. Dois grandes núcleos - Brasil e Estados Unidos - dominam a exposição. Na parte brasileira, o visitante pode entrar em contato com a discografia da estrela, além de conhecer a história de personagens fundamentais em sua carreira, como o Bando da Lua e a irmã e também cantora Aurora. Cartões-postais antigos, imagens do Carnaval de rua da época, registros dos lugares que Carmen freqüentava - como o Cassino da Urca - recriam para o visitante o Rio dos anos 1930, sempre embalado pelos registros fonográficos da artista. Trechos de filmes serão exibidos e uma sessão diária do documentário "Banana is my business", de Helena Solberg, dará ao publico uma noção mais clara da carreira da Pequena Notável no Brasil.

No núcleo americano, o foco está nas produções que Carmen participou, nos estúdios de Hollywood, na Broadway e em outros palcos. Um telão, montado sobre a reprodução do cenário de cabaré do filme "Uma Noite no Rio", exibirá as cenas de shows que a artista protagonizou no cinema


Instalação "Carmen Miranda Para Sempre" no MAM do Rio de Janeiro
americano e vai fazer o visitante mergulhar no universo da produção da época. "A intenção é que a exposição circule pelo País por mais dois, três anos", explica Canosa.

Outro destaque de "Carmen Miranda Para Sempre" é a seção fashion da exposição, em que os estilistas Carlos Tufvesson, Jacqueline de Biase, Napoleão Lacerda, Marco Maia e Luciano Canale, além dos criadores do Instituto Zuzu Angel, mostram trajes recuperados e fazem uma releitura do estilo Carmen Miranda de vestir.

Livros: "Carmen - Uma Biografia", de Ruy Castro;
           "0 ABC de Carmen Miranda", de Dulce Damasceno de Brito.

Sites: www.carmenmiranda.com.br
          http://carmen.miranda.nom.br


Serviço:
Carmen Miranda Para Sempre
De 8 de março a 23 de abril
Terça a domingo, das 9h às 18h
Entrada franca
Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura andrade, 664
Barra Funda - São Paulo (SP)

Tel: (11)3823-4600

Museu Carmen Miranda
Av. Rui Barbosa (em frente ao nº 560)
Parque do Flamengo - Rio de Janeiro (RJ)
De terça a sexta-feira, das 10h às 17h
Sábados e domingos, das 12h às 17h
Tel: (21)2299-5586



(*) Lana Miranda é, na verdade, um transformista
     que interpreta Carmen Miranda
     (Doni Sacramento)