"Enquanto Carmen visitava o Brasil, os chefões dos estúdios da 20th Century Fox tinham visto as sequências fotografadas em Nova York. Zanuck e Cia. devem ter ficado realmente atônitos com a personalidade da estrela do samba, pois não é sempre que um grande estúdio dá um dos principais papéis femininos, num filme caríssimo, a uma cantora estrangeira, que, além de ser uma perfeita desconhecida para o público cinematográfico em geral, não sabe falar inglês nem para pedir um bife com batatas. A Fox designou Zacarias Yaconelli, brasileiro radicado nos E.U.A. para ensinar inglês a Carmen. O Yaconelli foi um anjo de paciência. Diariamente, no hotel em que Carmen estava hospedada, ou no camarim do Chez Paree, lia para ela as linhas do diálogo, ensinava-lhe as deixas. Carmen ouvia tudo atentamente, e tomava notas. "Adotei uma fonética tão própria", conta ela, "que só eu era capaz de entender. Depois repetia tudo aquilo sozinha, no hotel, como um papagaio. A maior parte do tempo nem sabia o que estava dizendo. No dia seguinte o Yaco tomava a minha lição." E foi assim que Carmen Miranda estudou o seu papel em "Uma Noite no Rio". Decorou tudo o que tinha a dizer, e sabia exatamente quando devia dizê-lo. Também, isso não era vantagem: decorara todo o script. Sabia-o de fio a pavio: tudo o que Don Ameche, Alice Faye e os outros artistas do elenco tinham a dizer. ![]() "Na Fox, relembra Gilberto Souto (correspondente em Hollywood), "Carmen era uma verdadeira atração turística. Vendo-a trabalhar diante das câmeras, ninguém acreditava que não soubesse inglês. Não me recordo de tê-la visto errar ou esquecer uma só linha do diálogo durante toda a filmagem. Pelo contrário: não só tinha tudo na ponta da língua, mas também ajudava Don Ameche e Alice Faye quando eles esqueciam do que deviam dizer." A própria filmagem de "Uma Noite no Rio", foi assim, uma comédia. O primeiro dia, então, parece ter saído de um filme de Hollywood. Carmen ainda não conhecia Don Ameche, e ninguém se lembrara de apresentá-los um ao outro. Nervosa, mais nervosa do que nunca, estava ela no camarim, recordando a cena que deveria filmar dentro de alguns minutos - a primeira cena que faria com diálogos em inglês - quando alguém foi chamá-la, Mr. Ameche já a esperava. Foram apresentados às pressas. O diretor fez um rápido ensaio. E a primeira cena estava pronta numa só tomada: e olhem que era uma cena em que os dois desconhecidos se beijavam apaixonadamente. ![]() Para Irving Cummings, o diretor, Carmen era a "one-take girl", isto é, a pequena que fazia tudo certo na primeira tomada de câmera. E Cummings gostava de exibi-la para os visitantes. Os visitantes viam a tomada de uma cena, e achavam graça na piada do diretor. ![]() Em intervalo de filmagem de "Doll Face" (1945), Alex Viany, correspondente em Hollywood da revista "O Cruzeiro", conversa animadamente com Carmen Miranda "Os dois primeiros filmes de Carmen Miranda em Hollywood - "Uma Noite no Rio e "Aconteceu em Havana" -foram feitos sem que ela soubesse patavina de inglês. Ou melhor, sem que soubesse ligar as poucas palavras já aprendidas. Mas, depois, quando pegou velocidade, não houve quem pudesse com ela. Hoje em dia, seu inglês é quase perfeito - a não ser na tela, quando ainda fala, por imposição dos estúdios, com um pesadíssimo sotaque de comédia, e cometendo erros gramaticais que causariam o suicídio coletivo dos professores de Harvard e Yale. Aliás cabe-me aqui - respondendo aos críticos patrícios que não vêem graca em nossa estrela - que a comédia de Carmen Miranda, para ela escrita por cenaristas americanos, é essencialmente dirigida às platéias de língua inglesa. Por isso, é apenas natural que a maioria de seus trocadilhos, de suas piadas, desapareça na tradução. Por outro lado, até os críticos mais severos devem ter observado que Carmen aprendeu depressa a fazer graça, a ficar à vontade diante das câmeras, sendo hoje, sem exagero, uma das pouquíssimas comediantes de valor do cinema norte-americano. Em Hollywood, em bem pouco tempo a cantora brasileira conquistou os fãs americanos, e sua fama não tardou em se espalhar por todos os recantos do mundo. Ainda assim, Carmen jamais deixa de ficar surpreendida quando tem uma prova patente dessa fama. Lembro-me de que falava com surpresa de uma de suas primeiras excursões pela Quinta Avenida, olhando as vitrines, visitando as lojas. De repente, num grande "department store", vimos uma pequena a demonstrar uns lenços coloridos, que amarrava a cabeça numa complicada exibicão de técnica. Eram os turbantes à Carmen Miranda. Comprei alguns, só para recompensá-la pela propaganda, mas não fui reconhecida porque estava vestida de Maria do Carmo Miranda da Cunha." |