ANTONIO MARIA (ARAÚJO DE MORAIS)
(compositor e jornalista, 1921-1964)

"Sempre lhe quis um bem de devoto. Era, acima de tudo, seu fã e, uma noite, disfarçadamente, tomei-lhe um autógrafo numa fotografia, tirada na Itália. Hoje, na hora em que tento escrever uma nota para o jornal, todas as palavras com que diria o bem que lhe quis, trancam-se no coração e faltam-me nos dedos.

Fechando esta confusa e desordenada crônica, relembro a grande artista de nossa música. Que beleza! Sem voz, sem virtuosismo de espécie alguma, Carmen cantava à base de três coisas: inteligência, graça e sensibilidade. E como cantava! Perdoe-me a senhora Bidu Sayão, com toda a sua escala e toda a legitimidade de sua glória, mas nenhuma mulher do Brasil soube cantar tão bem. Não me digam que uma coisa não tem nada a ver com a outra, porque a base das duas é uma só: talento. E ninguém apareceu, até hoje, com aquele mistério de saber dizer as palavras e frases mais simples, num tom feito de todas as propriedades, inclusive uma molecagem necessária à legitimidade do samba.


Carmen Miranda dança com o compositor e
jornalista Antonio Maria (1955)

Talvez, eu esteja velho, talvez eu esteja morto, ou, talvez, quem sabe, estejamos todos tristes, mas, depois de Carmen, possivelmente não acontecerá mais nada na música popular brasileira".

(Jornal "O Globo", Rio, 9-8-1955)