(JOSÉ DE) ASSIS VALENTE
(desenhista, protético e compositor, 1908-1958)

Toda vez que eu esperava falar com a menina, ela se fazia acompanhar de um homem alto, moreno, sisudo, de pouca conversa, e empunhando um violão, sem capa. Vim a saber, mais tarde, que era o professor dela, Josué de Barros. Era tal a minha vontade de falar com a menina que me apresentei, para estudar violão, ao Professor Josué. Não acertava os acordes. Minha única vontade e pensamento era conhecer Carmen.

Um dia descobri a pólvora, e fiz uma música para ela cantar: "Bahia, Terra do Meu Samba". Carmen riu muito de minha pronúncia e meu jeito quando cantei a música. Mas gostou. Lançou-a na Mayrink. Ela foi depois contratada para o "Broadway Cocktail", hoje "Sessão Passatempo".

Fui assisti-la, eufórico, mas Carmen não cantou o samba. Fiz então "Good-bye, boy", que entusiasmou Carmen. Fui novamente ao "Broadway Cocktail, mas no intervalo, para meu desespero, ela acenou-me: "Tua marcha não vai. O Chico não gostou (Francisco Alves era o programador e fôra quem riscara "Good-bye"...) Diz que não estou segura". Mas Josué se distraiu na hora e tocou a introdução. Carmen começou: "Good-bye, boy..." Foi um sucesso tão grande que me arrancou lágrimas dos olhos. Ela me viu e gritou para o povo: "Vou apresentar, agora, a vocês, o dono da música." Houve um bis, todos cantaram em coro. Senti que tinha surgido.

(Revista "O Cruzeiro" - Rio, 3 de setembro de 1955, entrevista a Ary Vasconcelos)