EDDA MARTINS

"Adeus a Carmen ou ao samba? É difícil dizer. Na verdade, desde que a "pequena notável" foi expandir a música brasileira no estrangeiro, nosso Samba que aqui ficou começou a mudar, aos poucos, de feição.

Perdeu aquela graça brejeira, misturada do ruído baiano de berloques e balangandãs; a cuíca jaz esquecida lá no morro e o ritmo alegre e contagiante tornou-se lento, com jeito de "blue" americano. E isto sucedeu, não porque a nossa embaixatriz do samba estivesse americanizando a nossa música, mas porque não havia outra cantora do seu estilo. Talvez tenha sido por causa dela, sim, que o Samba tanto se desvitalizou, por falta de intérprete de igual "bossa", de alegria e do seu inigualável dom de comunicação.

O Samba de hoje é lento e triste. Ora, é fácil transmitir a tristeza. Uma letra sentimental, uma langorosa música, um compasso lento, um olhar apaixonado da cantora, uma voz que se prolonga em finais de canção, à meia luz. Mas transmitir alegria, conseguir que a gente se remexa na cadeira, querendo também gingar o corpo, comprometer a voz em saltitantes e requebrados sambas, que não admitem breves, mas só colcheias, fusas e semifusas... isto sim é milagre".

(Jornal "O Estado de S.Paulo", São Paulo, 26-8-1955)