PEDRO LIMA
(amigo)

"Muitos outros, antes de Carmen, foram lá fora para descobrir o Brasil aos olhos dos estrangeiros. Foi Duque e Gaby, levando a Paris os passos do maxixe; foi Pixinguinha com sua orquestra de nossos ritmos; Bidu Sayão com o bel-canto; Olga Praguer Coelho e Elsie Houston, seguindo o roteiro de Plácida dos Santos, a formosa gaúcha de plástica perfeita e lindo rosto que alucinou Paris. Naquela época do Eldorado, do Beco do lmpério e do velho Rio boêmio dos versos de Arthur Azevedo e Patrocínio Filho, Plácida fôra chamada a "Rainha da Canção", mas sequiosa de aventuras, foi aumentar seus sucessos em Paris, sendo a primeira a divulgar nossas canções populares fora de nossas fronteiras, exibindo-se no "Folies Bergére". Tivemos Alberto Cavalcanti no cinema europeu, como ainda Syn de Conde no cinema americano, atuando com a grande Nazimova, e o boêmio incorrigível Antônio Rolando, figurando nos filmes americanos e exibindo-se em números musicais, dançando, cantando e tocando o maxixe, o samba, os lundus, em noites de sucesso no "Ziegfield Follies". Nas artes, na ciência, nas letras, tivemos muitos nomes que hoje figuram nos registros das celebridades mundiais, como Rui Barbosa, o "Águia de Haia", que impôs o Brasil conhecido como potência entre as maiores, mas nunca ninguém alcançou a popularidade e ficou conhecida por tantos como Carmen Miranda, a "Garota Notável", cuja voz tinha feitiço e cujos "breques" envoltos em sorrisos feiticeiros e em brejeirice, tomavam conta da gente... O "Mirandismo" tornou-se epidemia e se irradiou pelo mundo. Andou nas reuniões elegantes, andou pelas ruas, espalhou-se pelas cidades e penetrou todo o interior dos mais distantes recantos da terra. Jornais, revistas, vitrines elegantes, casas de modas e até cigarros tinham Carmen Miranda!

E ela não foi nunca destas artistas que sabiam ajudar os seus dons de intérprete com o "sexy". Carmen nunca foi bonita, não possuía traços perfeitos para impressionar os juízes de concursos de beleza. No entanto, era fascinantemente atraente. Ninguém poderia passar ao seu lado sem olhar pela menos duas vezes. Saudável, alegre, pouca gente saberia sorrir com tanto prazer e de forma tão contagiante.

De lábios polpudos, um brilho sedutor nos seus lindos olhos verdes, sua espontaneidade não tinha confrontos. Sua linguagem repontava a gíria do povo e suas respostas penetravam sem ofender. Nunca vimos uma lágrima nos olhos de Carmen e jamais ouvimos dela um queixume. Recebia elogios e críticas como conselhos, não se envaidecia e nem se revoltava.

Era assim a Carmen Miranda, que cantava não só porque precisasse ganhar dinheiro, mas porque no canto ela encontrava um meio de estreitar sua amizade com o público, este público que considerava como sua imensa família".

(Jornal "Diário de Notícias", Rio, 9-8-1955)