SYNVAL SILVA
(compositor, 1911-1994)

"Carmen não podia ver miséria, sofrimento. Queria ajudar. Muitas vezes, conduzindo-a, como seu motorista particular, de volta de apresentações, procurava desviar sua atenção de algum mendigo na calçada, abandonado pela noite. Carmen depois me fazia dar a volta no quarteirão, parava o automóvel e deixava, não raro, uma nota de cem mil réis com o espantado miserável. Andava sempre apressadinha. Preferia as igrejas de bairro para rezar, onde não fosse reconhecida. Sendo reconhecida, saía. O maior aborrecimento que sentisse se desvanecia por completo quando subia o palco. Nem parecia a mesma pessoa.

Sempre dava um jeito de me incluir no côro das gravações ou em alguma parte de suas apresentações, para eu defender meus cachês. Pagava-se 400 mil réis por mês e continuou me pagando por algum tempo, mesmo estando nos E.U.A.

Em 1951, visitei-a nos E.U.A., levando um extenso repertório de boas piadas. Quase morria de tanto rir.

Pouco antes de falecer, dizia-me que era seu grande desejo sair no bloco dos "sujos" do Morro da Formiga, para brincar à vontade, anonimamente, no carnaval."