DAVID NASSER
(jornalista, 1917-1980)

Carmen sempre se considerou brasileira, brasileiríssima - e não gostava que alguém fizesse referência em contrário, mesmo honrando a terra de seus pais.

O almirante Gago Coutinho, na noite de sua estréia, nos Estados Unidos, conseguiu varar a barreira de porteiros e entrou no camarim da estrêla. "- Minha filha - disse o grande navegante - tu és cachopa de Portugal. Por que não cantas um fado, um vira"? - "Almirante, sou realmente brasileira. Apenas nasci em Portugal." - "Sim, mas podias, rapariga, cantar "O que é que a moça do Minho tem" ao invés de "O que é que a baiana tem?".

Carmen sorriu, osculou a face veneranda do simpático almirante e êle foi em paz. Ainda no Brasil, Carmen se expressava desta maneira, a tal respeito:
"- Carmen Miranda é brasileira, brasileiríssima. Já a Maria do Carmo Miranda da Cunha, conquanto nascida em Portugal, poderia ser considerada cantora brasileira. Mas desde que com a retirada do meu nome de batismo surgiu a Carmen, apareceu uma cantora brasileiríssima. Veja o meu repertório. Veja os nomes que nêle surgem a cada momento. Zé Pretinho, Zé Com fome. Compositores verdadeiramente regionais, 100% cariocas".

"Certa vez, em março de 1939, nos antigos estúdios da Odeon, montados na sede da Tupi, na Rua Santo Cristo, ela apareceu para gravar 'Candieiro' um samba meu.
- Onde está a letra, David?
Procurei-a nos bolsos. Botei os fundos para o lado de fora. Nada. Carmen sorria. Era a minha estréia no meio musical - e perdia os versos sem mais nem menos. Carmen se aproximou do microfone, sorrindo, com um "vamos ver como é que sai" nos lábios. E gravou, sem hesitar em qualquer ponto, todo aquele samba que falava sobre as primeiras sondagens do petróleo em Lobato."

(depoimento no livro "A Vida Trepidante de Carmen Miranda", 1966, página 41)