UMA GAROTA COM VOCAÇÃO E TALENTO NATO

pelo jornalista e historiador Abel Cardoso Junior (1938-2003)

Carmen tornou-se aluna da Escola Santa Tereza, dirigida por irmãs vicentinas, à Rua da Lapa nº 24, aos dez anos, no ano de 1919, na 2a série do primário.

Foi em 1919 mesmo que a escola iniciou suas atividades, visando proporcionar "educação primária e doméstica para as meninas pobres da redondeza."

Era uma classe de 30 alunas, em regime de externato, estendendo-se as aulas das 8 às 15 horas. A professora de Carmen era a Irmã Maria de Jesus Souza, também diretora. Mais 3 irmãs compunham o corpo docente.

Irmã Maria, paulista, viva e lúcida nos seus 77 anos (21-4-1900), recorda-se de sua aluna Maria do Carmo: disciplinada, solícita, alegre. Uma criança normal, como as outras. Dedicava-Ihe uma especial atenção, talvez pelo fato de terem o mesmo nome - Irmã Maria de Jesus, antes de receber as ordens religiosas, chamava-se Maria do Carmo. Foi também professora de Cecília e Aurora.

Em 1920, a convite do Presidente Epitácio Pessoa, visitaram o Brasil o Rei Alberto I e a Rainha Elisabete da Bélgica. Não é verdade, como se tem escrito, que Carmen tenha recitado uma poesia ao rei, numa visita deste à escola. As alunas foram levadas, isto sim, até a embaixada belga para participar de uma recepção aos soberanos. Sendo enorme a afluência, as meninas somente puderam homenagear o Rei Soldado abrindo alas à sua passagem. E lá estiveram porque a ordem vicentina provém da Bélgica.

Carmen recitou foi para a Núncio Apostólico que realmente esteve na escola, a poesia "Pindorama". E agradou tanto que recebeu do Embaixador do Vaticano um beijo na testa.

Irmã Maria achava os dotes de Carmen maiores para a declamação do que para o canto. Outro ponto interessante é que ensaiava Carmen e suas colegas para programas infantis de uma emissara de rádio, cujo pagamento de 2 mil réis ajudava bastante as meninas.

Minha infância foi a coisa mais pacata da vida...

E sorrindo com aquele sorriso que só ela sabe ter:

- Sempre fui uma garota pacata. Sossegada. E triste... Muito amiga das minhas bonecas, eu sempre tive tendência para ser uma criatura do lar. Unicamente e mais nada! ... E andei assim até aos sete anos, quando fui rumo ao colégio.

- Mamãe e papai, prossegue Carmen, resolveram, então, me matricular num colégio de irmäs de caridade. Entrei para o Colégio Santa Tereza, de onde só sai, mocinha, aos quatorze anos, com o curso completo. Sempre fui aluna muito aplicada. Tenho uma porção de medalhas e de prêmios, ganhos peia minha dedicação aos livros e pelo meu ótimo comportamento. As irmãs do colegio tinham verdadeira loucura por mim...

- Mas... desde garota pequenita, eu sempre senti nas veias a tendência para a arte. Quer dizer, para o canto e mais que isso para o palco... As irmãs sempre me escolhiam para fazer os discursos e os recitativos... E que eu dava para a negócio... E quando no palco, na presença daquele mundão de gente, eu me sentia um "bocado rapaz"... é que estava no meu elemento!...

- Agora, a nota sensacional da minha vida...

E Carmen, a consagrada cantora do nosso "broadcasting", prossegue:

- Registre isso: eu quando saí do colégio, aos quatorze anos, queria professar...

- Ser freira, Carmen?...

- Sim... ser freira... Chorei muito, porque essa era a minha vontade. Mamãe deixou, mas papai é que fez a mal, e cortou o meu desejo, proibindo-me de pensar nessa coisa!...

- E não privando a cidade de te ter como a jóia mais preciosa, acrescentamos.

- Sempre figurei nos corpos corais do colegio... E a minha vozinha se sobressaia das demais... Quando me davam papéis nas peças que representávamos no colégio, eu sempre "enxertava" as minhas partes, com coisas minhas... As irmãs não gostavam. E ao me repreenderem, diziam: "esta menina tem tendências para o palco... E isso é um grande pecado... "Mas o que tem de ser é mesmo..."

- Deixando o colégio, levei em casa dois anos, findo o que resolvi trabalhar no comércio... não por necessidade, mas para me distrair... E simultaneamente, a minha grande vontade de cantar as coisas dos nossos carnavais, o que o fazia com êxito..."(Jornal "A Hora" - Rio, 19 de outubro de 1933)

Deixando a Escola Santa Tereza, Carmen empregou-se em pelo menos duas lojas: "A PRINCIPAL", que vendia roupas e gravatas, pertencente à firma Cepeda Costa & Cia., situada à Rua Gonçalves Dias nº 55, e na loja de modas e novidades "LA FEMME CHIC" (A DAMA ELEGANTE), à Rua do Ouvidor nº 141, de propriedade do Sr. Luiz Vassalo Caruso, pessoa também ligada à grandes empresas exibidoras de cinema no Rio, Niterói e Juiz de Fora, de onde era proveniente.

Carmen contava apenas treze anos quando foi admitida no meu estabelecimento de modas e confecções -"Le Femme Chic" - à Rua do Ouvidor nº 141. Era um encanto de menina. Alegre, comunicativa, bonita, com urn ar brejeiro que Ihe dava muita graça. Desde pequena sempre teve assim bastante personalidade. Ajudava na confecção de chapéus e quando havia fregueses vendia no balcão. Maneirosa, simpática, ela conquistava logo as boas graças das elegantes senhoras que ali iam. E não havia quem deixasse de comprar chapéus em suas mãos. Tornou-se, por isso, a nossa maior "vendeuse".

O Sr. Luiz Vassalo Caruso conta-nos, a seguir, a sua amizade com a família de Carmen e diz que os pais da cantora eram excelentes pessoas, conceituadas, de grande retidão de caráter. O Sr. Cunha possuia uma loja de barbeiro na Rua 1º de Março. Dona Maria Emília, além de cuidar carinhosamente dos filhos, dirigia uma pensão de sua propriedade na Travessa do Comércio, onde eram servidas refeições à rapaziada do comércio. Desfrutava o casal de muita estima ali.

Depois desses informes, para acentuar que Carmen vivia num ambiente familiar dos melhores, apesar da modéstia dos Cunha, o Sr. Luiz Vassalo Caruso volta a falar da jovem "vendeuse" de "La Femme Chic".

- Mme. Boss era a contramestra do meu estabelecimento. Carmen aprendia com ela a fazer chapéus. E quando se entretinha no trabalho desse adorno feminino cantava sempre, à meia-voz, músicas populares. Todos ficavam embevecidos, inclusive Mme. Boss, que, entretanto, para manter a disciplina da casa, advertia brandamente a discípula:

"Menina isto aqui não é lugar para se cantar". Carmen dava uma gargalhada sonora, sadia, gostosa, mostrava a sua linda dentadura e desculpava-se. No fundo todos gostavam de ouvi-la. Até mesmo as freguesas, quanda a supreendiam cantando, se detinham a apreciar a sua bonita voz e a sua graça encantadora. Realmente ela tinha um jeitinho todo seu de cantar. (Jornal "A Noite" - Rio, 10 de agosto de 1955)

A própria Carmen contava a Gilberto Souto, "...de seus dias de balconista ou ainda de quando trabalhava para um português na cidade, antes de ganhar o mundo e alcançar fama. "Eu tinha muito jeito para arrumar vitrinas, e, às vezes, já estava de hora marcada com algum namorado, quando o homem (aqui começava a imitar o português...) me dizia: "Ó Dona Carmen, hoje bai-me ficar mais tarde p'rà arrumar as bitrines". De outra, me contava que vendia muitas gravatas somente porque os fregueses a achavam - "sei lá", dizia-me ela, "muito boa", e compravam só para puxar conversa."

Em 1926, Carmen Miranda sonhava com o estrelato do cinema.

Pediu a um conhecido que a apresentasse ao jornalista espedializado em cinema Pedro Lima, que escrevia na revista "Selecta".

"Lembramo-nos dos velhos tempos de repórter, quando íamos ao cinema Odeon procurar Serrador para saber das novidades de Hollywood a fim de noticiar aos fãs. O Marcos, encarregado da programação, aproveitava para fazer um pedido. De certa feita, perguntou-nos se näo nos interessava conhecer uma jovem, muito simpática, que sabia cantar e tinha vontade de trabalhar no cinema. De Iugar no cinema só tinhamas o da bilheteria do Cine Paris. Mesmo assim fomos apresentados à jovem que se chamava Maria do Carmo Miranda da Cunha. Tinha loucura pelo cinema nacional. Publicamos o seu retrato na revista "Selecta", de 7 de julho de 1926, já como extra das filmagens que então faziamos. Depois mencionamos seu nome em vários estúdios, sem maiores resultados. Separamo-nos e só muito tempo depois é que a vimos de novo, quando Josué de Barros, em 1927, a descobriu, por intermédio do parlamentar Anibal Duarte, que deu uma festa no Instituto Nacional de Música e apresentou Carmen como número musical." (Revista "O Cruzeiro" - Rio, 20 de agosto de 1955)

O retrato de Carmen foi publicado sem menção do nome numa pose estritamente da moda, segurando as pontas do vestido.

Em 1930, já famosa no disco, Carmen quase concretiza seu ingresso no cinema nacional, no filme "Degraus da Vida", de Lourival Agra, que não foi realizado. Apenas em 1933 chegaria às telas.






Texto extraído do livro      
"Carmen Miranda - A Cantora do Brasil"      
de Abel Cardoso Junior      
Edição Particular do Autor - 1978